Medo de perder o emprego

Medo de perder o emprego: o custo de esconder quem você é

O Brasil elegeu seu presidente dia 25 de outubro de 2026. Segundo a constituição brasileira, o voto é direto e secreto, com valor igual para todos. Nenhuma pessoa pode influenciar o voto de alguém pela imposição, assédio ou ameaça, pois isso fere a própria Constituição em si. Até 29 de outubro, foram quase 3.400 denúncias de assédio eleitoral no trabalho em 2026, segundo dados do Ministério Público do Trabalho divulgados pelo g1. Mais de 1.140 delas chegaram nos três dias seguintes ao segundo turno. Apesar de serem números preocupantes, esse texto não é sobre quem assedia ou ameaça o trabalhador por causa de seu voto. Quero conversar sobre quem, nas últimas semanas, precisou medir cada palavra dita por medo de perder seu emprego.

O trabalho, para todos nós, consome uma parte significativa de nossos dias, e também retorna a nós uma renda que nos permite manter a vida em ordem. Imagine então que, por causa do trabalho, você precisa filtrar rigidamente o que você mostra, o que sente, o que pensa, por medo das consequências. É aquele momento que você pensa duas vezes antes de compartilhar um post, apaga um comentário feito, muda a foto de perfil, bloqueia todo mundo do trabalho das suas redes sociais. Porque se mostrar com menos filtros pode te trazer problemas sérios, já que ameaça seu salário e como você se sustenta na vida.

Isso poderia ser só sobre eleição, mas se você depende de um emprego, de um cliente ou de um contrato, sabe que esse filtro sobre expor a vida pode acontecer de jeitos diferentes. Vou te dar um exemplo pessoal. Há 20 anos, eu trabalhei numa empresa que, veladamente, proibia seus funcionários de consumirem publicamente produtos dos concorrentes. Não era uma proibição direta e aberta, até porque esse tipo de conduta é proibido por lei, mas tinha sempre alguém que conhecia um outro alguém que havia sido demitido logo depois de serem vistos consumindo produtos da concorrência. Eu passei a ficar em constante alerta, esconder minhas preferências, postar fotos sem produtos na mesa, pedir para meus amigos manterem perto deles qualquer item da concorrência para não acharem que eram meus. Mesmo depois de eu deixar a empresa, me lembro de sentir taquicardia ao consumir produtos de outro fabricante em público. Demorou mais de 1 ano, e precisou que eu saísse da minha cidade, para que essa sensação de ter meu emprego ameaçado passasse.

É claro que não precisamos ser completamente abertas o tempo todo, e manter uma parte nossa em sigilo e privacidade é necessário para garantir uma vida equilibrada. Mas há uma diferença entre privacidade e segredo. Uma está ligada à sua liberdade de escolher o que expõe publicamente ou não, a outra impõe que você esconda partes de si de pessoas específicas para não sofrer retaliações que poderiam colocar sua vida social em risco. Ou sua vida financeira, como é o caso de assédio no trabalho.

Segundo Michael Slepian (2017), pesquisador da Universidade Columbia que estuda segredos, o que pesa não é o ato de esconder, mas o quanto a mente volta ao que foi escondido. Para ficar claro: segredo, no contexto do estudo, é toda informação específica que uma pessoa deliberadamente esconde de outra pessoa. Não importa o tamanho da informação que você esconde, e sim o peso que essa informação carrega. O que você esconde por medo do que pode acontecer se a informação vier a público pesa; uma surpresa preparada para alguém costuma até dar energia.

O problema com manter segredos não tem a ver com pessoas, eventos ou lugares específicos. Ele tem a ver com o funcionamento da mente. Como segredos estão relacionados a questões que ainda estão em andamento, assuntos não resolvidos ou preocupações atuais, a mente tende a priorizar sua atenção a esses assuntos, inclusive quando você não está vivendo as questões. É sobre como você volta ao mesmo assunto ao longo do tempo, pensa em estratégias de manter essa informação guardada, reflete sobre suas consequências, mesmo que a situação em si tenha passado. É o peso de reviver mentalmente as consequências do segredo que leva a uma sensação de baixa satisfação com a vida, ansiedade e solidão. Isso porque segredos tendem a não ter uma linha de chegada, um momento no qual alguém diz que não precisa mais daquela informação.

Na minha história, o que pesava não era esconder o que eu consumia. Eu já estava com um sistema de alerta tão acionado que a taquicardia continuou mais de um ano depois de eu sair da empresa, mesmo quando já não havia mais nada a esconder. O que realmente prejudica é que sua mente volta ao assunto constantemente, te lembrando do que você ocultou e como isso faz você se sentir. Essa constante lembrança é o que interfere no seu bem-estar porque, a cada lembrança, você revive sentimentos de vergonha, incerteza, isolamento ou inautenticidade.

Tudo isso pode mexer no seu bem-estar, e até na sua saúde mental nesse momento eleitoral. Afinal, o voto é secreto, mas não deveria ser um segredo. Há uma diferença entre você ter o direito de manter seu voto privado e sigiloso, e você precisar esconder em quem você votou porque isso pode virar motivo de chacota, de brigas e até de demissão.

O custo de você precisar esconder essa informação não é sobre você ter que ficar calada durante o horário de trabalho, ou durante aquele jantar com familiares que pensam diferente de você. O custo vem antes e depois do evento em si no qual você escondeu a informação: vem de você ficar pensando em formas mirabolantes de evitar a conversa, de ficar matutando como publicar uma foto sem transparecer sua visão política e o que você pensa, de ficar editando o que escreve e publica para não se expor. Sua mente não desliga e você vai consumindo uma boa energia que poderia ser destinada para seu bem-estar.

É claro que a eleição só mostrou uma dinâmica interna que já existe, que você provavelmente já faz em outros contextos, mas não percebe. É quando você precisa esconder uma gestação para não ser preterida em uma promoção ou ocultar um diagnóstico de saúde mental para não ter seu emprego ameaçado. Tudo o que você precisa esconder e pode gerar uma ruminação mental consome seu bem-estar.

Sei que em diversos contextos e situações, não é possível abrir algumas informações. O salário no final do mês às vezes pede discrição e muito cuidado com informações pessoais no ambiente de trabalho, e vale sempre refletir sobre os riscos de se abrir a intimidade e privacidade em horário comercial. A reflexão que precisamos fazer é sobre como você tem lidado com toda essa pressão fora do ambiente de trabalho: as ruminações, os medos, a angústia de ser descoberta, a vida sendo editada para evitar que algo ruim aconteça. Tudo isso é o que tem potencial real de minar sua sensação de bem-estar no dia a dia. Segurar algumas informações para se proteger é uma coisa. O custo dessa proteção é outra.

Se você sente que ainda há uma ameaça de perder sua renda por causa do seu voto, minha sugestão é sempre buscar órgãos competentes que recebem denúncias sigilosas, como o Ministério do Trabalho e Emprego ou Ministério Público do Trabalho. Isso também vale para qualquer outro assédio que você esteja passando. Caso toda essa situação esteja causando mal-estar fora do ambiente de trabalho, conversar com alguém de confiança, fora do trabalho, costuma aliviar mais do que a gente imagina, porque o assunto deixa de ser carregado sozinha. E se ainda assim você sentir que não está adiantando, pode ser que a ajuda profissional seja necessária.

Um abraço,

Sara

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Sara Matos

Sara Matos é psicóloga, com atuação em saúde emocional, autoconhecimento e na relação entre emoções e dinheiro.

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