Você sente medo de olhar seu saldo bancário. Ou mal sai de uma dívida e já entra em outra. Mesmo tendo consciência de que isso não faz bem para suas finanças, segue fazendo sem entender por que faz isso, nem como mudar definitivamente. Dos muitos caminhos que levam uma pessoa à terapia (ou impedem alguém de chegar nela!), um deles é o da curiosidade de saber não apenas quem somos, mas saber por que certas coisas acontecem conosco. A terapia se torna um espaço de descobrir as causas das suas dores, principalmente quando nada ao seu redor parece dar uma explicação satisfatória para o que está acontecendo. Por que você faz o que faz ou sente o que sente? Mas encontrar a resposta para essas perguntas é apenas a primeira de três fases pelas quais você passa quando inicia um processo terapêutico.
A FASE DO PROJETO DA CASA
O projeto de uma nova casa psíquica para você viver é a fase que considero mais abstrata, pois busca a causa, a origem do que alguém está passando. É uma parte importante de qualquer processo, já que é ela quem traz clareza, mostra dinâmicas invisíveis que se desenrolam, aponta para vulnerabilidades e também para o que realmente pode ser mudado. Ciclos que se repetem ficam claros, seus mecanismos são expostos e você compreende como você funciona. E quando o início do ciclo se torna compreensível e visível, um sentimento surge junto: a mente se acalma e renova sua esperança. Ela passa a acreditar que, se seu problema tem início, ele também pode ter um fim.
Essa fase é relativamente rápida (quando comparada com a próxima). Nossa mente consegue lembrar fatos, ligar pontos e encontrar causalidade muito mais rápido do que imaginamos. Alguém pode começar a chegar a essa linha de raciocínio: não é porque sou ruim com dinheiro que faço compras por impulso. Na verdade, isso começou lá na infância quando eu ficava triste e alguém me dizia que ia comprar um brinquedo para eu me acalmar, por exemplo. O comportamento que me causa dor hoje tem uma origem, e ela não começou comigo. E se eu encontrei a origem, posso ter esperança de encontrar um fim também.
Às vezes, vejo pessoas paralisadas na fase do projeto. Normalmente, é quando alguém me diz “se já sei tudo o que tenho que mudar e conheço todos os meus problemas, por que nada muda?”. Esse é alguém que tem um belo projeto de vida nas mãos que nunca saiu do papel. Eu mesma já fui essa pessoa, em 2011. Eu tenho certeza que se estivéssemos falando de uma casa física, em vez da casa interna, você jamais pensaria que o projeto que um arquiteto te entregou é a casa em si reformada. Da mesma forma, saber a causa de todas as suas questões não basta para mudar ciclos de vida.
Também conheci pessoas (eu já fiz muito isso!) que, no momento de começar a mudar, começaram a se perguntar se não deviam trabalhar um pouco mais no projeto. Será que não tem um segredo de família que eu precise descobrir? Ou quem sabe essa situação dolorosa ainda tenha algum “plot twist” escondido, uma informação a mais que ajude a transformar mais rápido? Será que não preciso trabalhar mais o que me trava por dentro? Na maioria das vezes, é medo de dar o primeiro passo.
Mas o real desafio da terapia é a fase seguinte. Ela começa com a pergunta que eu mais ouço em sessão: “tá… bonito o projeto, mas como eu mudo?”
A FASE DA OBRA DA CASA
A dinâmica da terapia, aqui, muda: você pode ter o melhor e mais belo projeto interior, mas ele só acontece quando você muda como age no mundo. Você, como cliente, começa a sair da posição de mera espectadora de sua história passada e passa a ser ativa em suas próprias mudanças, e o terapeuta passa a acompanhar essas mudanças, usando ferramentas para ouvir e orientar essa cliente pelo caminho novo e desconhecido. A perspectiva da terapia muda de uma posição explicativa de “sou assim porque isso aconteceu comigo” para a necessidade da mudança com “o que aconteceu comigo não precisa me definir e posso mudar minha atitude e fazer diferente a partir do que me aconteceu.” E mudar comportamentos requer paciência, tempo e tolerância aos próprios erros. É por isso que a terapia se mostra um terreno importante no processo: ela vira um espaço livre de julgamentos para explorar a si mesma enquanto vive a mudança.
É a diferença entre você saber que precisa segurar seus gastos, reduzir as compras daquelas blusinhas no site estrangeiro, e realmente chegar ao dia em que, quando você estiver entediada no fim de semana, vai colocar tudo no carrinho e não vai clicar em “forma de pagamento”. Há uma distância grande entre saber o que precisamos fazer e realmente fazê-lo.
Quando você decide tirar o projeto da gaveta e começar um “mãos à obra”, talvez você paralise. Não por medo da mudança, mas pelas exigências que ela impõe. Na minha prática clínica, o primeiro empecilho à mudança é a dificuldade em lidar com o tempo exigido para que uma mudança aconteça. Se você quer reduzir compras por impulso, não será segurando seus gastos por uma semana. Você provavelmente terá que fazer isso por, pelo menos, 1 ou 2 meses. Dependendo do quanto o hábito da compra por impulso estiver enraizado, mais tempo pode ser necessário. Um comportamento enraizado por anos não se muda em uma semana. E aceitar que leva tempo, e que cada pessoa tem um tempo diferente, ajuda a não desistir da mudança no meio do caminho.
Muitas vezes, quando a obra começa e o caos da mudança se instala, muito do próprio projeto muda. Você vê que suas compras por impulso parecem vir da infância, mas percebe, ao tentar mudar, que o tempo que passa no Instagram (uma rede social que estimula a compra por impulso) também está influenciando o seu processo. E, de repente, você descobre que uma informação, uma situação ou um comportamento na sua realidade atual, e não apenas no seu passado, não estava sendo considerado como parte do problema, mas agora precisa ser parte da solução.
Não quero com isso que você entenda que está tudo na sua mão, como se a mudança agora só dependesse de você! E você e eu sabemos que isso pode não ser verdade, porque não vivemos apenas numa realidade interna, mas também numa realidade externa, lidando com situações que acontecem todos os dias e forças que estão além do nosso controle individual. Empresas fecham, os preços aumentam, a economia fica abalada, nada disso está ao seu alcance, e tudo isso pode impactar a sua vida. Achar que tudo sobre a mudança individual é única e exclusivamente responsabilidade do indivíduo é uma conclusão pesada e que, muitas vezes, causa desconforto e até paralisa o processo inteiro. Afinal, se é você contra você mesma, para que terapia, certo?! Mas isso não significa que a terapia não possa ser uma potente aliada, mesmo quando fatores que vão além da individualidade estão operando.
A FASE DE HABITAR A CASA
Depois de montar o projeto, reformar a casa, está na hora de habitá-la. Habitar no melhor sentido mesmo: usar os novos móveis, criar novas rotinas, abrir as portas para que outros venham e conheçam o que mudou em você. Não conheci uma pessoa que quisesse reformar sua própria casa para não querer morar nela depois. Essa parte também requer um tempo de adaptação. É o momento em que você percebe que o projeto previu uma torneira em formato diferente, você vê que ficou lindo quando foi entregue, mas é difícil de usar.
Em terapia, algo semelhante se desenrola. Habitar a casa interna, caminhar com as mudanças que você fez, abrir as portas para que outros decidam se querem se manter ali ou não, pode te causar desconfortos por um tempo. Se você passou por um processo de detox de compras por impulso, por exemplo, pode parecer muito esquisito aceitar o convite de uma amiga para passear no shopping e fazer comprinhas. Não é possível mudar e querer que tudo continue no mesmo lugar.
Habitar a casa leva você a revisitar quem vai habitar nela com você. Toda mudança vai além de nós mesmos e impacta quem nos rodeia. É função da terapia te ajudar a atravessar essa última fase de mudanças: como seu entorno reage às mudanças que aconteceram dentro de você e também como você se sente nesse processo. Uma relação pode não conseguir se manter quando você coloca uma porta em um cômodo que era de livre acesso a todo mundo (e agora não é mais!), e isso pode fazer você se sentir culpada pelo fim. Ao mesmo tempo, outras podem chegar, trazendo novos ares, novas experiências, novas conversas.
SÓ O QUE SE COMEÇA PODE TER UM FIM
Começar a obra (interna ou externa!) não é fácil para ninguém. Uma vez, uma cliente me disse “descobri que eu quero contratar um arquiteto para fazer tudo e só chegar na casa pronta… não quero passar pela obra.” Não conheço uma única pessoa que ame um quebra-quebra na própria casa (se tiver alguma leitora aqui que goste, quero te conhecer!). Nem arquitetos, nem terapeutas, nem clientes.
Na fase do projeto, descobrir onde um ciclo começou trouxe a esperança de que ele também pudesse terminar. Mas encontrar o começo na sua história não basta para que o ciclo termine. Para isso, é preciso um segundo passo, o da obra: o primeiro mês sem comprar aquilo que só acumula e pesa no orçamento, a primeira conversa difícil sobre dinheiro na mesa de jantar, o primeiro limite colocado em uma situação que precisava dele.
A gente só sabe quando uma obra interna começa, nunca como ela vai caminhar.
E você, em que fase sua obra está?
Um abraço,
Sara.
