Meses atrás, por influência de uma cliente, eu li Em Busca de Mim, a biografia da Viola Davis. A história de vida dela é atravessada por traumas, racismo e violência, e uma capacidade extraordinária dessa mulher de não desistir de si mesma. De tudo o que ela escreveu, quero fazer um recorte específico: casamento e ambição da mulher.
Essa é uma conversa comum em consultório:
– Sara, meu marido não tem a mesma ambição que eu.
– Como isso faz você se sentir?
– Horrível.
– Você conhece a Viola Davis?
– Sim, conheço. (com olhos de quem se lembra de uma mulher de sucesso)
– Você sabe quem é o marido1 da Viola Davis?
Viola2 é uma das poucas mulheres na história do audiovisual, sendo a terceira mulher preta a completar o EGOT, status de quem ganha Emmy, Grammy, Oscar e Tony. Até hoje, 27 pessoas já conseguiram esse status. Ela conheceu seu marido, Julius, no set de filmagem em 1999. Além de outros empregos, ele também era ator, e já havia sido casado e tinha duas filhas do primeiro casamento. Casaram-se em 2003 e, durante a relação dos dois, é possível ver a dinâmica de uma mulher que quer mais de sua carreira ao lado de um homem que emocionalmente dá suporte à caminhada dela. É muito bonito ver, durante a leitura, como era ele quem dizia “você vai ganhar um Tony”, ou “eu estou com você”. No livro, a mulher que quer ir além encontra um parceiro que deseja, genuinamente, que ela também vá, celebrando junto suas vitórias, ao invés de competir com ela.
Gosto de fazer a provocação em sessão perguntando se a cliente sabe quem é o marido da Viola Davis porque sei que ela é uma mulher de sucesso reconhecido num universo altamente competitivo e seleto como o audiovisual, e seu marido prefere uma vida longe dos holofotes. A ideia mais comum é pensar que uma mulher ambiciosa estará casada com um homem de igual desejo ou estará solteira e sem filhos. A mesma imagem não surgiria se eu estivesse perguntando “você sabe quem é a esposa do Tom Hanks?”.
Quando alguém diz que uma mulher não sabe lidar com dinheiro, talvez vá achar que está fazendo apenas uma constatação simples da realidade. Afinal, se toda mulher com quem essa pessoa se relacionou disse que tem dificuldade de lidar com dinheiro, então isso deve ser uma verdade universal, certo? Errado. A ideia que associa um gênero específico a um comportamento específico, como mulher e dificuldade de lidar com dinheiro ou homem e facilidade de lidar com dinheiro, se chama viés de gênero, e ele está na base da crença de homens e mulheres quando o assunto é dinheiro.
Um dos vieses de gênero que, em sessão, surge é quando se aborda relacionamento a dois e ambição financeira: como eu, mulher, me relaciono com alguém que não tem os mesmos desejos e ambições financeiras que eu? Parece uma pergunta de uma mulher preocupada, pois não quer estar ao lado de um homem preguiçoso. É uma preocupação válida, mas eu prefiro trazer um olhar mais profundo. Para desmascarar o viés de gênero, eu costumo retornar a pergunta dessa mulher com outra: “se você fosse um homem, isso seria uma preocupação?” Normalmente, a resposta é não, e isso importa muito.
Uma das diretrizes internas para a palavra marido (dentro de homens e mulheres), no recorte do dinheiro, costuma ser: “devo crescer na minha profissão, ganhar dinheiro, construir patrimônio e minha família me apoiará, porque também será para eles”. Para alguém no papel social de homem-marido, a ambição financeira, longas horas de trabalho, ver a família aos fins de semana, tudo isso para construir patrimônio para si, em primeiro plano, e para a família, como consequência, é normal e esperado.
A diretriz interna, em homens e mulheres, para a esposa costuma ser: “eu vou abrir mão de parte de minha profissão ou ambição, porque minha família precisa de mim”. Portanto, para alguém no papel social de esposa, sua ambição precisa ser justificada com benefício primeiro para a família, e não pode impactar nas suas tarefas de cuidado com a família. Para o homem-marido, sua prioridade é ele mesmo e ele pode estender os seus ganhos para a família; para a mulher-esposa, sua prioridade é o outro e, para ela ter direitos, a família precisa permitir. O que é dele é dele, o que é dela é de todos.
Fiz questão de frisar que ambas as diretrizes estão dentro de homens e mulheres, porque vieses de gênero são formas que uma pessoa tem de se comportar no mundo, e também de esperar como o outro também deve se comportar. Vieses podem ou não aparecer nos discursos, mas eles dirigem comportamentos. Por isso, achar que a ambição financeira é direito de uma mulher, por exemplo, não significa se comportar como se isso fosse uma realidade tão válida quanto qualquer outra.
Eu não me lembro de nenhuma mulher que tenha passado pelo meu consultório que não tivesse remuneração vinda de trabalho. Todas tinham salário, profissões, eram economicamente ativas. Entendiam a importância da renda feminina para seu bem-estar. A maioria até queria ir mais longe na carreira, por exemplo, mas tinha receio de como isso afetaria a família. Como se, para ser mulher-esposa, fosse preciso abrir mão de ter algo para si, como seu próprio dinheiro, sua profissão, seus investimentos. Seus parceiros não tinham a mesma preocupação em suas próprias carreiras.
Mas tenho percebido um movimento diferente nos últimos anos. Mulheres que têm crescido em suas profissões, melhorado suas rendas, ambicionado uma vida melhor e ido atrás de seus sonhos me contam orgulhosas de seus feitos (e eu queria sair na rua com plaquinhas mostrando as conquistas delas)! Mas, quando elas estão em um relacionamento a dois, o orgulho que elas sentem de si mesmas vem misturado com outros sentimentos, como culpa ou vergonha.
O viés de gênero faz uma distorção de conceitos para mulheres: um comportamento neutro dentro da realidade é associado a um afeto positivo quando feito por um homem, mas é associado a um afeto negativo quando feito por uma mulher. Uma ambição financeira e profissional, que é neutra na realidade, quando vista pelas lentes do masculino se torna autonomia, individualidade, independência. Pelas lentes do feminino, é solidão, culpa, vergonha, inadequação, abandono. A associação de ambição financeira e profissional dessa forma é, provavelmente, um dos motivos pelos quais a mulher vai silenciosamente abrir mão de seus próprios projetos. Que mulher vai querer bater no peito e dizer “eu quero!” sem que isso resulte, de alguma forma, no questionamento dela como mulher?
Lembro-me da primeira vez que falei em sessão para uma cliente “vejo que você é uma mulher ambiciosa”. Ela abriu um sorriso, mas logo depois tentou entender se eu estava colocando um afeto positivo ou negativo nas minhas palavras. E mesmo eu dizendo que é natural e saudável ela ter ambições, foi difícil para ela lidar com a avalanche de sentimentos negativos que surgiram.
Parece um movimento simples dizer a alguém que é tudo bem ela ter ambições, que é natural, ou que isso não faz dela alguém errada/quebrada. Na verdade, é realmente fácil falar. Difícil mesmo é digerir toda a carga emocional associada aos vieses de gênero que surgem no momento que a mulher tenta ser fiel a si mesma.
O caminho nunca é simples, e passa por estradas às vezes desafiadoras. Mas caminhar por elas sozinha pode tornar a travessia mais longa. Porque transformar um viés de gênero toma tempo, requer uma dose extra de fôlego e uma rede de suporte, inclusive terapêutica.
1 Uma informação importante: o marido da Viola Davis se chama Julius Tennon. Ele não é um homem sem trabalho, vivendo às custas do sucesso profissional da esposa. Ambos são atores e produtores, sócios em uma empresa que realiza projetos inclusivos na indústria audiovisual. Quando se conheceram, ela não sabia ainda o que era sucesso. O score de crédito de Viola era muito baixo e ela recebeu o primeiro prêmio, um Tony Award, em 2001, quando já estavam juntos. Mas, durante o livro, vai ficando perceptível que ambos têm desejos/ambições para suas profissões bem distintos. E a relação foi importante para seu sucesso, ao invés de provocar nela mais sensação de solidão e culpa.
2 Ela fala bastante no livro sobre o papel da terapia em seu processo de assumir a si mesma.
