Há 10 dias, a Gillete lançou uma publicidade questionando a construção dos conceitos de masculino que hoje se mostram tóxicos, pois levam toda uma sociedade a mais dor e sofrimento. Se você ainda não viu, clique aqui. Se você já viu, deve ter se perguntado: “certo, agora tudo o que aprendi é tóxico e não serve… e como educarei meus filhos se eu só sei fazer daquele jeito?”

Opiniões ficaram divididas. Alguns experts opinaram sob o viés de marketing para questionar o novo posicionamento da marca, visto que por anos ela mesma sedimentou e lucrou com essa imagem de homem branco, de sucesso e que conquista mulheres com a barba perfeita. Além do fato de que agora parece mesmo é que a marca está mudando características de sua personalidade (se reposicionando) de uma forma brusca e, aparentemente, buscando retomar vendas ao se conectar com gerações mais jovens através de um discurso “politicamente correto”. Sobre marketing, apesar de ser uma de minhas formações, não tenho opinião formada. Prefiro deixar para quem trabalha diretamente com isso fazer suas análises e expor o que pensa. É possível que a empresa esteja realmente se apropriando de um discurso para apenas fazer uma mudança de posicionamento sem realmente mudar sua cultura interna ou ter intenções de lutar por uma causa e apenas lucrar com isso; como também pode ser que ela tenha mudado o core do negócio e decidiu fazer isso de forma abrupta para chocar, na estratégia de “arrancar o band aid de uma vez”. Só o tempo dirá.

Um outro grupo, questionou a publicidade pelo viés humano e social. Homens (em sua maioria) e mulheres passaram a emitir opiniões como “mas agora meu filho vai ser fraco?”, “vou criar uma mulherzinha?” , “essa publicidade não mostra o que é ser homem de verdade!” ou ainda “é errado ser homem de verdade?”. Essas formas de pensar me remetem a um ponto: normalizamos um masculino que acha que vulnerabilidade é fraqueza. O que esses homens e mulheres querem falar com as frases acima é: “Eu cresci assim… Eu vivo assim… Meu pai era assim, o pai dele, e os homens da minha família também. É assim que fui educado. Agora vem você me dizer que tudo o que há dentro de mim é tóxico? Que eu sou tóxico e estou machucando meu filho?” Há um conceito de certo/errado que é difundido de forma tão inconsciente que não questionamos se esses conceitos trazem saúde e paz, ou se nos levam a um destino de dor. Quando paramos de julgar algo por certo ou errado, e colocamos a realidade do quão doente podemos ficar se continuarmos com esses conceitos, talvez tenhamos uma saída. Todo mundo quer ser certo, ninguém quer ficar doente.

E o que é masculinidade tóxica? É uma masculinidade pautada em mitos repassados como verdades absolutas por gerações. Vejam alguns abaixo:

  1. Homem não chora. Guarde todos os sentimentos dentro de si, senão você é fraco.
  2. Briga resolve tudo
  3. Existem “coisas de menino” e “coisas de menina”
  4. Se menino brinca com coisa de menina, ele é gay – e é rechaçado dentro e fora de casa
  5. Homem precisa querer sexo o tempo todo. Se ele não quer, é gay.
  6. É responsabilidade do homem cuidar APENAS das finanças da casa, e todo o resto (dividir tarefas domésticas e de criação de filhos) é responsabilidade da mulher
  7. Todo homem tem que sustentar a casa sozinho
  8. Pedir ajuda é para fracos (principalmente se a ajuda vier da mulher). Homem de verdade faz tudo sozinho.
  9. Homem tem que ser competitivo, senão ele é engolido.

Há uma saída? Sim! *suspiros* Como toda saída, ela é simples, mas não é fácil. Aqui vão oito dicas para te ajudar a criar meninos com um masculino mais saudável:

  1. Deixe de lado a atitude “isso é coisa de menino!” ou “garotos serão sempre garotos”. Quando vir dois garotos brigando, não os ensine que isso é ser homem. Ao invés disso, converse sobre sentimentos, sobre necessidades que não estão sendo satisfeitas e como eles podem lidar com isso de forma mais eficaz. Vai ser desconfortável no começo, pois vai exigir de você que também olhe os seus próprios sentimentos, mas vai ser muito bom.
  2. Encoraje seus filhos a terem amigas, sem nenhuma conotação relacional além da amizade. Fazendo isso, você ensina seu filho a compreender quando uma garota está afim dele e quando ela não está e, principalmente, a respeitar mulheres.
  3. Ensine seu filho um alfabeto emocional. Quando sabemos o que estamos sentindo é mais fácil de lidar com a situação.
  4. Converse com seu filho. Mantenha um diálogo aberto sobre como pensam e como se sentem. Dessa forma, você ensina seu filho que é seguro ele se expressar e aprender a conversar sobre qualquer assunto.
  5. Observe como seus filhos estão investindo seu tempo livre. Passam mais tempo interagindo com máquinas ou com pessoas? Para desenvolver empatia e ferramentas para lidar com emoções, é fundamental que a criança possa ter interações sociais que gerem aprendizados. É no contato com o outro que crescemos, pois aprendemos sobre nós mesmos e sobre como lidar com o outro de forma saudável e construtiva.
  6. Ensine sobre a importância de se colocar no lugar do outro, ver o mundo pela perspectiva do outro. Empatia é a habilidade do futuro.
  7. Observe suas atitudes como pai e mãe dentro de casa. Como você lida com o masculino? Você replica dentro de casa alguns desses mitos acima? Você expressa suas emoções de forma segura ou enterra tudo? Crianças aprendem com o exemplo mais do que com palavras.
  8. E por último, repense que modelo você quer ser para seu filho. Você está na sua melhor versão? Está educando um filho para respeitar e viver num ambiente socialmente saudável ou para replicar conceitos que, em outro tempo foram úteis, mas que agora podem criar uma sociedade disfuncional?

Duas dicas: 1. ouça esse podcast do Mamilos. É uma conversa honesta de 4 homens sobre masculinidade e sentimentos. Vale a pena! 2. Veja esse documentário: The Mask You Live In – Netflix.

A mudança começa por você. Por isso, se você sente que precisa de ajuda, busque alguém. Recebo semanalmente em meu consultório homens que sentem como se vivessem em uma panela de pressão, sem saber o que fazer com tanta coisa que está dentro deles, sem saber definir o que sentem. Você não precisa passar por isso sozinho.

 

Sobre o autor Sara Matos

Psicoterapeuta e empreendedora.

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