Sou casada e, todos os dias, percebo que é natural me dispor a dar algo para a relação crescer e me abrir para receber também. Antes de conhecer meu marido, a frase “bonzinho só se ferra” era quase um mantra para mim. Fazia parte do meu dia-a-dia tanto quanto  “bom dia/ obrigada/ por favor/ me desculpe”. Eu era a boazinha e só tinha relações que não se sustentavam, sem entender porque aquilo acontecia tantas vezes comigo ou até mesmo como sair dessa roda e fazer diferente.

Quando comecei a entrar em contato com as constelações familiares, há 2 anos atrás, me foi dito que, para que o amor dê certo, algumas ordens (ou regras) precisam ser respeitadas. Uma delas é o equilíbrio entre o dar e o receber. Ela é simples: eu dou algo, um pouquinho só, que me faz bem e agrada o outro, e este fica feliz e retribui o gesto me dando algo um pouquinho melhor em troca. Assim, vamos construindo a relação a dois. Por exemplo, faço uma surpresa ao meu marido e lhe dou um livro. Ele fica feliz e me retribui com uma flor. Eu fico feliz e faço um jantar para ele. Ele fica feliz e… por aí vai. Esse é o equilíbrio positivo. Há também o equilíbrio negativo. Por exemplo, eu preparo a comida preferida do meu marido, mas ele resolve ir jogar futebol com os amigos. Isso me deixa chateada e retribuo indo jantar com minhas amigas, deixando ele sozinho em casa. Ele fica chateado e retribui usando meu carro, esvaziando o tanque e não enchendo de volta. Eu fico chateada e… por aí vai. Dentro de uma relação, às vezes estamos num equilíbrio positivo, em outras no equilíbrio negativo e assim vamos levando.

Enquanto o equilíbrio é mantido, a relação se sustenta. Quando o desequilíbrio (entre o dar e o receber) acontece, é aí que a relação fica ameaçada. E é desse desequilíbrio entre o dar e o receber que o “bonzinho” vive. Sabe porquê? O “bonzinho” só quer dar, e dar muito! É muito amor, muita entrega, muitos presentes, muito tudo, mas na hora de receber ele se fecha. Há um sentimento de não merecimento do retorno daquilo que ele deu. Ele não consegue receber e, por isso, de forma inconsciente ou vai buscar quem não está disponível para uma relação saudável e equilibrada, ou quando acha alguém que queira de verdade dar algo para ele, vai arranjar um jeito de sabotar a relação. Há também o bonzinho agindo a partir de um outro mecanismo: o de dar esperando receber sim aquilo que lhe é de direito, mas precisa ser do jeito que ele quer, no tempo que ele quer. Parece uma tentativa de estabelecer um equilíbrio na relação, mas não é. Aqui, ele já dá esperando o retorno sob certas condições e, quando esse retorno não vem, em vez de esperar até que o outro possa retribuir, ele vai dando mais até achar que irá conseguir o que quer: a imagem de bonzinho da relação. Neste mecanismo, no lugar do respeito existe uma imposição de vontade, da sua vontade, sem respeito genuíno ao parceiro.

Num relacionamento, quando uma das partes dá muito mais que a outra, há uma separação entre os dois e, aquele que recebeu muito, se sente com uma dívida tão grande que não vê outra alternativa a não ser deixar a relação. Ele sente que não conseguirá retribuir com algo que seja tão bom ou tão grande quanto o que recebeu e uma equiparação não pode ser conseguida. Uma das partes deu muito e se criou um abismo entre os dois que não pode mais ser preenchido. Aquele que se sente em dívida é quem vai provocar a ruptura do relacionamento e, normalmente, com briga, descontentamento, cobranças e muita dor na separação.

O “bonzinho” não vive nessa falta de equilíbrio entre o dar e o receber à toa. Há várias crenças que atuam em sua vida, convencendo-o que ele não merece afeto. Se puder, faça um exercício. Sente-se confortavelmente, traga a memória sua última relação e se pergunte: eu estava disposto(a) a receber o que essa pessoa tinha para me dar? O que ela tinha para me dar me faria contente? Eu dei muito mais para a relação do que precisava, achando que eram gestos de amor necessário para conquistar o outro? E se eu recebesse apenas o que eu mereço, o que seria?

Por mais que eu esteja falando de uma relação a dois, este processo vale em qualquer relação humana. O equilíbrio entre o dar e o receber faz parte da nossa vida em qualquer esfera em que existam dois seres humanos se relacionando, seja numa amizade, no trabalho ou nossa família (considerando aqui uma relação de nível “horizontal”, como entre irmãos ou primos, e não de forma “vertical” como entre pais e filhos onde a relação é um pouco diferente e eu abordarei em outro texto).

Há uma forma de sair dessa roda de desequilíbrio do “bonzinho” para estar numa relação realmente saudável e equilibrada: aprendendo a dar apenas um pouco, esperando o movimento do outro de retribuir o gesto e se abrindo para receber! Portanto, se você busca mais equilíbrio em sua vida e em suas relações, preste atenção no movimento de dar e receber. Pode ser que você perceba que existe uma oportunidade para equilibrar seus relacionamentos de uma forma mais construtiva, positiva e amorosa.

Sobre o autor Sara Matos

Psicoterapeuta e empreendedora.

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