Tem uma frase que algumas pessoas, e talvez você seja uma delas, usam como proteção contra dores: “bonzinho só se fode.” Ela aparece depois de uma decepção vivida, de dar um presente e não receber nada de volta, de um favor que virou obrigação. E ela tem uma lógica. Só que essa lógica quase sempre aponta para o outro, para quem te decepcionou, para quem se aproveitou, para quem não reconheceu o que você fez.
O que é mais difícil é quem acredita nessa frase se perguntar: e se o problema não for que eu sou bonzinho demais com os outros, mas que eu sou bonzinho demais com todo mundo, menos comigo mesmo?
Com dinheiro, esse padrão aparece de um jeito específico. Não necessariamente na história de quem emprestou e não recebeu de volta, embora isso também aconteça. Ele vem antes disso. Aparece na dificuldade de cobrar o que é justo pelo seu trabalho sem ficar com o coração acelerado. Na sensação estranha de desconforto quando alguém pergunta se você precisa de ajuda para organizar seu dinheiro. Na conta que você paga pelo grupo porque “é mais fácil assim.” No investimento em você mesmo que sempre fica para depois, quando e se sobrar. Você é sua última prioridade financeira.
O comportamento humano
Existe uma mecânica no comportamento humano que estudiosos do comportamento econômico chamam de reciprocidade, a tendência de equilibrar o que se dá e o que se recebe nas relações. Quando esse equilíbrio funciona, as relações se sustentam. Quando uma pessoa só dá e não consegue receber, o desequilíbrio aparece e ele tem um custo. Tanto emocional quanto financeiro.
O que a pesquisa comportamental documenta, e o que aparece com frequência na minha prática clínica, é que a dificuldade de receber não fala sobre generosidade, ou orgulho ferido. Ela é sobre uma crença que opera antes da consciência: a de que o retorno não é merecido, que vai custar algo caro, ou que receber coloca a pessoa em uma posição de vulnerabilidade que ela prefere evitar.
Isso se traduz em comportamentos muito concretos com dinheiro.
A pessoa que nunca negocia salário porque “já estou grata de ter o emprego.” A que aceita receber menos do que combinou porque “não quero criar confusão” ou “não quero que as pessoas me achem mesquinha.” A que tem dificuldade de dizer não para o pedido de ajuda financeira de um familiar, mesmo quando isso prejudica sua própria saúde financeira, por medo de parecer ingrata. A que desconversa e evita toda situação que exige falar de dinheiro para si mesma: quanto ganha, quanto gasta, quanto deve, quanto vale.
Esse incômodo não é fraqueza. É um sinal de que tem algo funcionando ali que merece atenção.
Você se vê nessas situações?
O bonzinho com dinheiro não é necessariamente quem empresta para todo mundo. É quem ainda não aprendeu que cuidar de si financeiramente não é egoísmo, é necessidade básica. É quem trata as próprias necessidades como secundárias e as dos outros como prioridade máxima. É quem sabe exatamente o que cada pessoa próxima precisa, mas trava quando alguém pergunta o que ele quer, o que ele sonha, o que ele deseja.
E a frase “bonzinho só se fode” vira um mantra cínico, porque a conclusão que se tira é que o problema é ser bom. Quando o problema, na maioria das vezes, é a direção do cuidado: sempre para fora, nunca para dentro.
Se você chegou até aqui, vale uma pergunta para levar:
Quando foi a última vez que você fez algo financeiramente bom para você mesmo? Não como recompensa por ter dado conta de tudo, mas simplesmente porque você merecia?