Hoje é segunda, dia mundial de começar-alguma-coisa: a dieta, fazer exercícios, parar de fumar, economizar, programar aquela viagem para daqui a 3 meses, organizar agenda, aquele projeto novo, etc. As possibilidades (e desejos) são enormes e, quando chega a segunda, vem o momento ideal para começar-algo-nunca-feito-antes. Mas sabe como é, né… Primeiro veio o natal e o ano novo, e ninguém faz nada nesse período. Depois janeiro é férias e, em seguida, tem o carnaval, e todo mundo sabe que o Brasil “só funciona” depois que o carnaval passa, né?! Daí, a páscoa, dia das mães, dia da árvore, dia do índio, até que aquele planejamento/tarefa/projeto fica pro dia-de-são-nunca. Sabe o nome disso? PRO-CRAS-TI-NA-ÇÃO! É isso mesmo! Procrastinação, também conhecida como a arte de “deixar para amanhã o que pode ser feito hoje” e “deixar para lá o que pode ser feito amanhã”.

Quando se pensa em procrastinação, logo se pensa em preguiça. Um procrastinador é um preguiçoso, certo? Não. Adiamos nossas tarefas e decisões por vários motivos que nada tem a ver com preguiça, na verdade. Alguns adiam por acharem que não tem habilidade para fazer direito uma determinada tarefa (“só farei quando puder fazer perfeito!”). Quando surge uma nova atividade, os procrastinadores tendem a deixar para executá-la na última hora seja  por duvidarem de suas capacidades, por não calcularem adequadamente o tempo dessa tarefa ou até mesmo por terem “pensamentos positivos mágicos” como “vai levar apenas cinco minutinhos”, “é uma tarefa rapidinha”, etc. Outros evitam fazer aquelas tarefas chatas e maçantes (mas que precisam ser feitas da mesma forma!), sempre preferindo trocá-las por outras mais divertidas e agradáveis. Ainda tem aqueles que deixam para última hora porque não sabiam nem como começar! (“nossa! esse projeto é tão complexo que nem sei como começa-lo… quando eu souber, eu faço”). No fim, para tudo o que é importante, há um prazo a ser cumprido, sendo ele conhecido ou não.
Você já deve ter se deparado com essa cena (ou algo muito parecido com isso): você precisa ligar para alguém, talvez um cliente em potencial ou um novo fornecedor. Você pega o telefone, tem um momento de hesitação e pensa: “ligo depois”. Você pode pensar que não ligou para o cliente porque tinha preguiça, ou porque não tinha tempo. O processo de procrastinação é muito mais complexo do que se imagina e os diálogos internos que acontecem entre a intenção e a ação são muitas vezes tão inconscientes que nem percebemos. Afinal, procrastinar é uma ação que resulta de dois processos muito humanos: acreditar que algo que você fizer te trará algum desconforto ou desprazer e os sentimentos negativos que emergem quando você vai fazer algo que não preferia fazer. Então, se fossemos equacionar isso, a matemática seria: pensamentos negativos + reações emocionais = procrastinação! No exemplo dado, pode ter acontecido que, ao intencionar ligar para o potencial cliente, você pode ter um pensamento/crença inconsciente de que “vai ser difícil convencer esse cliente a comprar meu produto” ou “eu não sei ouvir um ‘não’” que virá acompanhado por uma possível reação emocional de rejeição. Tudo isso passou pela sua cabeça de forma inconsciente e o resultado final é “ligo para ele quando tiver tempo!”. Quando você percebe, estava fazendo atividades menos urgentes, menos importantes, porque aquelas que poderiam mudar seu caminho foram deixadas de lado devido a um mecanismo que mina seu desempenho e sua capacidade de realização.
Procrastinação é um mecanismo que temos para lidar com situações que consideramos estressantes, dolorosas, desconfortáveis ou não prazeirosas. Ela existe como uma forma mecanismo de auto-preservação. Em outras palavras, a procrastinação é uma forma de buscar por prazer e conforto, mesmo que temporário, diante de incertezas da vida. É sedutora, pois parece nos dar um breve momento de relaxamento no stress do dia-a-dia. Mas não se iluda: por trás dessa máscara de aparente tranquilidade e relaxamento existe um sentimento de culpa e raiva autodirigida. A procrastinação é a recompensa imediata que nosso sistema interno aprendeu a buscar para criar a fantasia interna que não temos que lidar com aquele desconforto naquele momento, ao mesmo tempo que não nos deixa esquecer que é culpa nossa se não fizemos esse desconforto passar de forma permanente e gera uma raiva interna que dirigimos a nós mesmos por não termos sido capazes de resolver o desconforto quando ele apareceu pela primeira vez.
Bom, a boa notícia é que a procrastinação é uma ação/hábito aprendido (sim, aprendido!) que pode ser desprogramado, se feito com amor, dedicação e consciência! Eis algumas dicas bacanas:

– Reconheça que você procrastina e busque a mudança real. A primeira ação real que precisa acontecer é: reconheça que você procrastina e porque você faz isso. Hábitos levam tempo para serem reprogramados. Não desanime… E não se chicoteie se você cair de novo na “mesma armadilha de sempre”!. Procure ser sempre amoroso e acolhedor com seu processo de aprendizado. Ao mesmo tempo, eu sugiro fortemente que você se elogie e reconheça suas vitórias no caminho.

– Conheça suas crenças limitantes e seus medos. Busque ajuda. Todos temos crenças que influenciam positiva e negativamente nossa vida de alguma forma. Essas crenças, quando negativas, geram medos infundados que limitam nossa ação. Busque encontrá-las, e se for necessário procure um profissional para te ajudar a lidar com elas e veja seu padrão de ação mudar.

– Exclua permanentemente do seu vocabulário as expressões: “eu tenho que…”, “eu devia…”, “eu preciso…”. Nosso subconsciente entende essas frases como “obrigações” e, consequentemente, tudo o que você “precisa”, “devia” ou “tem que” fazer vira um peso, um desconforto e ativa imediatamente seu sistema de auto-preservação. A probabilidade de você deixar pra lá é enorme! Ao invés disso, troque por expressões mais realizadoras. Por exemplo, em vez de falar “eu preciso emagrecer”, diga para si mesmo “eu vou emagrecer fazendo isso-e-aquilo”; mude de “eu devia comer menos gordura” para “eu serei mais saudável e reduzirei a quantidade de gordura que como pela metade”.

– Organize-se. DE VERDADE! Ter uma lista de atividades mensais, semanais e diárias ajuda e MUITO a ter atividades concluídas e acompanhar, numa linha do tempo, o passo-a-passo de cada coisa que precisa ser feita. Pode ser aterrorizante, visto como algo burocrático, chato, difícil ou perda de tempo fazer planejamento. Comece com coisas simples, colha os resultados e amplie para outras maiores e mais complexas. Por exemplo, organize algumas atividades rotineiras como agendamento de contas a pagar, ou qual dia do mês você fará supermercado usando uma lista de compras feita previamente. E cumpra! Você verá resultados práticos, terá aquela sensação de dever cumprido e ainda perceberá que tem mais tempo disponível do que o que tinha antes.

– Desmembre grandes projetos em projetos menores. Um dos motivos pelos quais as pessoas procrastinam tarefas difíceis é por medo do tamanho/complexidade que tem determinados projetos! Uma boa dica que eu sigo é pegar aquela grande ideia, pensar nela pronta e ir pensando, passo-a-passo, no que precisa ser feito para que ele seja finalizada. Faça isso até chegar no passo 1 e então comece. Por exemplo, imagine que você precise fazer um bolo. Já pare aqui mesmo! Você não precisa, você quer fazer um bolo! Quer fazer porque fará alguém feliz, porque te desestressa… Tenha um motivador para fazer um bolo e queira fazê-lo. Bom, para isso, ele será assado por 30/40 minutos. Antes disso, o forno será pré-aquecido por 5/10 minutos. O passo anterior é bater o bolo, e isso deve demorar cerca de 20 minutos. Para bater o bolo, você vai separar e pesar todos os ingredientes, uma tarefa que deve durar de 5/10 minutos. Se é importante para você esse bolo, você vai querer fazê-lo e saberá que a dedicação para essa atividade é de uma hora aproximadamente.

– Seja honesto com você sobre prazos. Por falar em primeiro passo, temos sempre o ímpeto de pensar que algo vai ser “facinho”, ou que “faço em 5 minutinhos”, ou que “não vai demorar nada!”. Evite essas expressões ou qualquer outra correlata, ok? Juro que é para o seu bem… 🙂 Ao invés disso, seja honesto e verbalize: “essa atividade vai demorar 2h para ser concluída” e então organize seu dia, semana e mês dentro daquilo que você tem de tempo disponível e aquilo que você precisa fazer.

– Para aquilo que não tem prazo, dê um! Diferente do empregado que tem deadlines e um chefe cobrando o cumprimento desses prazos, o empreendedor tem a si mesmo, seus desejos e sonhos para realizar. Normalmente, ele não põe prazos nos seus projetos e “vai fazendo aquilo que dá!”. Conselho de terapeuta? Aliás, conselho de AMIGA, né?! Ponha prazos para tudo o que você for fazer. Não permita que seu sistema de recompensas se abrace com sua procrastinação e te impeça de ir cada vez mais longe!
Eu comecei esse texto porque, depois de 4 meses enrolando para sentar e escrever, entendi o que estava acontecendo. Não sabia o que poderia escrever, qual assunto poderia me motivar a passar um tempo do meu dia na frente do computador e o assunto estava bem na minha cara. Literalmente! Hoje, escrevo mais por estar feliz em poder me compreender mais, me organizar mais e buscar lidar de forma saudável com meu próprio mecanismo de auto-preservação. Se você como eu procrastina um monte, eu te falo: tem jeito, minha gente! Tem jeito! Basta olhar, aceitar e então buscar estratégias para mudar.

Sobre o autor Sara Matos

Psicoterapeuta e empreendedora.

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