Quando uma mulher é agredida fisicamente, há uma chance enorme de que o agressor seja punido. Afinal, existe lei que protege a mulher nos casos em que ela sofre violência (de qualquer tipo). E a prova cabal da agressão, muitas vezes, é visível, ficando mais fácil de provar a culpa e prender o agressor. Não quero, de verdade, falar que agressão física é algo já amplamente discutido (vamos combinar que não é…), até porque tantas morrem por causa disso. Um homem que se sente “dono” de uma mulher é capaz de tudo para proteger sua “propriedade”. Se for preciso matar para “proteger”, então que seja!

Mas precisamos trazer a tona a violência psicológica, porque, por ser mais sutil, é mais difícil de ser desmascarada. Ela é quase imperceptível a olho nu, digamos assim. Me lembro que, em 2003, li o conto do Barba Azul, no livro Mulheres que correm com os lobos, e me peguei pensando em quantos “Barba Azul” eu e as mulheres ao meu redor haviam conhecido e se relacionado. Homens que encantam, cortejam, sorriem; são encantadores e charmosos quando conhecemos (pelo menos achamos que sim). Vem aquela voz, lá no fundo, dizendo que é meio esquisito um homem com uma “barba azul”. Mas “ele me chamou pra sair”… “ele é inteligente”… “ele se veste bem”… “ele me trata bem”… Pouco objetivos são os argumentos que, nessa hora, encontramos pra aceitar esse homem. Aos poucos, vamos abafando a voz daquela sábia mulher que mora dentro de nós, que nos pede para enxergar melhor e não aceitar esse homem. Depois de um tempo, ele começa a mostrar suas cores reais e a testar seus limites, bem devagar.

Imagine a seguinte conversa:

Mulher: “Eu achei que meu cabelo ficou ótimo!”

Homem (rindo bastante): “Nossa, você parece um macaco com esse cabelo!”

Mulher: “Oi?!”

Homem (continua rindo): “Entenda… Isso foi um elogio! Eu adoro macacos…”

Nesse ponto, olhando de fora podemos achar que a atitude mais sensata seria correr para bem longe desse homem. Sim é, mas nem todas fazem isso e é a partir dessas pequenas falas que homens assim vão minando nossa autoestima, nosso autoamor. Afinal, eles nos amam, nos querem bem, só não sabem escolher as palavras certas para nos elogiar, não é? Hmmm… Não. Até porque, quando era para conquistar, ele sabia elogiar. Em pouco tempo, sem que você perceba, ele começa a desmerecer suas escolhas, seu trabalho, seus amigos, seus familiares e tudo a sua volta, até você começar a se questionar se você realmente tem algum valor como mulher, como ser humano. A tendência dessa mulher, depois de despida de seu próprio valor, é aceitar essa situação, chegando a acha-la NORMAL. Já ouvi as frases: “ruim com ele, pior sem ele”; “se não for ele, vai ser outro… então vou ficar com o que já conheço!”; e o que, pra mim, mostra o grau de violência e abuso que essa mulher passou na vida e não sabe mais quem ela é e o amor que ela merece: “é só o jeito dele de demonstrar amor! é diferente e eu até já me acostumei… não tem nada demais nisso…”.

A partir dessas falas, fica claro ver como é difícil identificar e denunciar uma relação psicologicamente abusiva. O físico é visível e inquestionável; o emocional é tratado como etéreo e altamente subjetivo. Afinal quem te garante que não é tudo coisa da sua cabeça? Será que você não está vendo demais? Será?

Se ainda assim você não sabe identificar uma violência psicológica, vão algumas situações que ajudam a esclarecer o assunto:

– O outro quer determinar como você deve se vestir, se portar, comer ou se expressar;

– O outro critica tudo o quer você faz.. nada está bom ou é o suficiente;

– Suas relações afetivas são desqualificadas, sejam elas de amigos ou familiares;

– Seu corpo é criticado de forma ostensiva em tom de “brincadeira”;

– Você pode até não ser xingada em público (ele nunca iria manchar sua reputação de bom homem), mas não se preocupe que ele dará um jeito de te mostrar como você está passando dos limites. Dele.

Ouço sempre muitas histórias de mulheres que lutam pelo seu lugar no mundo. Alguns relatos são de mulheres independentes, trabalhadoras incansáveis e com uma carreira brilhante mas que acabam no lado pessoal tendo relações emocionais frágeis e abusivas, que abalam sua auto-estima. E isso acontece muitas vezes porque a pessoa não sabe que sofre abuso emocional, ou mesmo tem esta percepção mas não sabem como deixar esta relação doentia.

Toda mulher tem uma voz interior, uma guia sábia que pode lhe mostrar que todos merecem ter uma relação saudável e feliz. Esta voz quer que você saiba que você pode, a qualquer momento, tomar sua vida em suas mãos e escolher o lado do amor, do auto-amor. Com sabedoria ancestral, ela vai te guiar sabiamente no retorno ao caminho da plenitude.

Se você tem dificuldade de ouvir esta voz, saiba que não está sozinha. Não hesite em procurar ajuda, seja de alguém em quem você confie muito, um parente próximo ou de um psicoterapeuta que pode te ajudar a encontrar o caminho da sua plenitude para que você possa se libertar e caminhar plenamente com liberdade e amor.

Sobre o autor Sara Matos

Psicoterapeuta e empreendedora.

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