Essa semana, dois episódios foram manchete nos principais jornais aqui no Brasil: um motoboy que pulou de um prédio em São Paulo com uma criança, e um homem que aparentemente matou a esposa, os dois filhos e depois se matou. Há alguns meses atrás, um empresário também se matou após demitir 200 funcionários de sua empresa. Ninguém conhece a fundo o que os motivou a isso, mas os bilhetes deixados me levaram a suspeitar que o suicídio deles pode ter um ponto em comum: depressão. Então, chegamos naquele momento em que precisamos ter uma conversa franca e aberta sobre saúde mental dentro do empreendedorismo.

Outro dia num bate papo muito despretensioso, um amigo me disse que sempre teve suspeitas de que ele teve depressão em um momento de sua vida. Será que, apesar de todas as informações disponíveis que temos, sabemos mesmo diferenciar uma depressão de uma tristeza?
Tristeza é uma das emoções básicas do ser humano (junto com a alegria, raiva, medo e nojo) e tem um espectro de intensidade que pode ir de um mero desapontamento por uma expectativa não correspondida até uma angústia ou aflição, um estado de tristeza agitada. Essas emoções são importantes para nossa vida diária, pois nos ajudam a elaborar lutos e perdas, além de serem momentâneas. É natural que em momentos de crise, no qual desemprego aumenta e o faturamento diminui, tenhamos que elaborar essa tristeza para que possamos tirar proveito da situação e mudar nossa realidade.
E a depressão? Bom, uma coisa você pode ter certeza: depressão não é uma evolução da tristeza, apesar de haver pessoas que relatam uma tristeza profunda e sem aparente motivo quando descrevem seu período depressivo. O que na verdade ocorre é que durante a depressão há, além de outros sintomas, uma incapacidade do indivíduo de sentir alegria e prazer em atividades que antes eram agradáveis, choro aparentemente sem motivo e uma tendência ao isolamento. Os outros sintomas já mapeados são: desânimo, cansaço mental, dificuldade de concentração, esquecimento; tendência ao isolamento tanto social como familiar; apatia, desinteresse, falta de motivação; falta de vontade, indecisão; sentimentos de medo, insegurança, desespero, vazio; pessimismo, ideias de culpa, baixa autoestima, falta de sentido na vida, inutilidade, fracasso; ideias de morte e até suicídio; dores e outros sintomas físicos geralmente não justificados por outros problemas médicos, tais como cefaleias, sintomas gastrintestinais, dores pelo corpo, pressão no peito; alterações do apetite; redução da libido, insônia ou aumento do sono.
Em uma pesquisa feita entre empreendedores americanos, descobriu-se que 30% deles tem depressão e 5% já tentaram suicídio, que é o dobro de incidência quando comparamos com indivíduos assalariados. Isso não quer dizer que é melhor ter um salário fixo para não ter depressão, e sim que o empreendedor sofre uma pressão maior da sociedade para o sucesso e muitas vezes acha que “precisa engolir o choro e continuar trabalhando”, sem olhar e lidar com sua própria dor.
Cada indivíduo é único e reage a eventos na sua vida de forma singular. Por isso, nem sempre percebemos todos esses sintomas em uma pessoa que está com depressão. Algumas realmente sentem a tristeza profunda, mas outras por exemplo demonstram sua depressão enchendo suas agendas de compromisso para evitar olhar para o vazio que sentem em suas vidas. É importante que saibamos perceber em nós mesmos nossas emoções para que procuremos ajuda quando necessário.
É comum eu encontrar pessoas que acham que depressão é frescura, que basta olhar ao redor e ver que a vida é linda e que para tudo no mundo há um jeito. Deixa eu te contar um segredo… Depressão não é frescura. Ela é uma doença causada por um desequilíbrio hormonal e que precisa de tratamento como qualquer outra doença. Em alguns casos com remédio, mas a psicoterapia precisa ser incluída no processo. Há estudos que comprovam que antidepressivos não tem efeito sem psicoterapia, pois eles modificam a química cerebral, mas não mudam a forma como você enxerga o mundo. Já vi pessoas que trataram a depressão somente com antidepressivos e não procuraram terapia para fortalecer sua auto-estima e tiveram recaídas ao longo da vida, pois não olharam para a forma como elas percebem a si mesmas e ao mundo.
Uma pesquisa feita recentemente mostrou que somente 2% da população faz psicoterapia, e que é o mesmo percentual de quase 15 anos atrás. Nessa mesma pesquisa, 34% dos respondestes afirmaram que esperam que aconteça um grande evento em suas vidas para que possam procurar terapia. Mesmo com toda a tecnologia, textos, blogs, artigos, pesquisas, internet, Google e afins, ainda existem muitos tabus para serem vencidos. Aliás, ontem mesmo saiu um vídeo da Jout Jout falando para todo mundo se livrar do preconceito  de fazer terapia.
Se você está experimentando, há duas semanas ou mais, de sentimentos de apatia, desânimo, cansaço e desinteresse pela vida sem motivo aparente, procure um psicoterapeuta. E se você não estiver se sentindo assim, mas quiser se conhecer melhor, ter relacionamentos mais saudáveis e se sentir bem consigo mesmo, também procure um psicoterapeuta. 😉

Sobre o autor Sara Matos

Psicoterapeuta e empreendedora.

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