A pergunta certa não é como parar de procrastinar.

Um dos males do nosso tempo se chama procrastinação. Quase todo mundo que conheço, desde pessoas próximas, clientes e até eu mesma, já tentou alguma ferramenta anti-procrastinação: fazer uma lista de tarefas, colocar metas diárias/semanais de atividades, só começar uma tarefa quando terminar outra, fazer a separação entre o que é urgente e importante. Os livros que falam sobre mudanças de hábitos, produtividade, ou como fazer as coisas acontecerem acabam entrando na lista de livros mais vendidos. Até porque uma das promessas de alta produtividade é ter mais dinheiro. Tem algo que esses livros não te contam sobre como parar de procrastinar, mas eu te digo o que é.

A CENOURA E O BURRO

Não me orgulho muito de te dizer isso, mas de livros de procrastinação eu entendo. O que entendi aplicando o que esses livros sugerem: eu sou uma grande impostora porque nenhuma dessas ferramentas funcionou comigo por mais de 2 semanas. Algumas nem funcionaram. Só eu me senti assim tentando forçar uma produtividade do jeito que disseram que era “normal”?

Quando alguém me pergunta como parar de ser procrastinadora e ser mais produtiva, ou chega em sessão se sentindo culpada por procrastinar coisas importantes, mesmo sabendo das consequências ruins, eu entendo. Esse não é um desejo aleatório. Ele faz sentido e parece ser válido quando entendemos as condições nas quais vivemos hoje, e as mensagens que recebemos sobre como devemos viver nossa vida – não necessariamente como a vida precisa ser vivida para que tenhamos qualidade.

Você, como eu, vive na sociedade da produtividade, que nos diz que tudo o que fazemos precisa ser útil de alguma forma, trazendo algum benefício oculto ou declarado. A recompensa da produtividade e do esforço contínuo é o resultado alcançado sem problemas, do jeito que você intencionou: mais tempo disponível, mais dinheiro, mais sucesso. E se você não está sendo produtivo o tempo todo, você está errado, quebrado e pode ficar muito pobre.

Quando eu estava no corporativo, diziam que todo mundo funciona como um burro que só anda quando você monta nele e mostra diante dele uma cenoura presa numa vara. A grande mensagem que essa imagem deixa é uma que estamos com dificuldade de compreender: para a produtividade acontecer, a promessa que ela faz é inalcançável.

A mais bela mentira em tudo isso é que se você fizer o que tem que ser feito, você pode se dar ao luxo de desfrutar o que te dá prazer, terá sucesso e mais dinheiro disponível. Para isso, é sugerido colocarmos horário para tudo o que temos que fazer, comprar aparelhos que facilitem nossa vida, usar uma IA para ganhar tempo em tarefas burocráticas. Se você for produtivo, no final você não só terá o resultado que almeja, como também a recompensa do tempo livre para as coisas boas da vida e alcançado o merecido sucesso.

Se você olhar ao seu redor, vai perceber que está todo mundo cansado, sobrecarregado, com saúde mental na corda bamba. Não à toa.É que a produtividade promete o descanso merecido, o tempo para fazer o que te dá prazer, sucesso e recompensa financeira, mas não tem interesse em te dar acesso a isso. O resultado de uma alta produtividade é ter sempre mais para fazer, ao invés de ter mais tempo livre. É achar que para ganhar mais dinheiro você precisa gastar mais. É se comparar com o sucesso alheio e saber que você ainda não alcançou o seu. Não importa o quanto o burro ande, a cenoura jamais foi dele.

PROCRASTINAR É FRACASSAR?

Para a sociedade da produtividade, quanto mais você faz, mais precisa ser feito. Quando a principal mensagem para todos nós é que o esforço precisa ser contínuo se você quer alcançar o resultado desejado, o céu é o limite. Quanto mais você se esforçar, quanto mais produtiva você for, mais rápido o resultado chegará. Por isso, para ela a procrastinação é um defeito, uma falha a ser eliminada. Só que essa ideia está errada.

Quando o tema produtividade/procrastinação chega em sessão, o que percebo não é falta de desejo ou de vontade. O que mais vejo é culpa, vergonha, cansaço, raiva de si mesma, sensação de se sentir inadequada por não conseguir eliminar esse “defeito” permanentemente. A grande surpresa vem quando eu pergunto “como você se sentiria se eu te dissesse que essa procrastinação está te protegendo?” Costumo receber de volta caras de espanto, olhares confusos, como se minha pergunta as pegasse de surpresa.

Mecanismos de defesa, como a procrastinação, são formas instintivas que humanos têm de se proteger de algo que, na sua percepção, fará mal ou trará algum tipo de prejuízo. Mesmo que esse prejuízo não esteja visível, não pareça tão grande, seja contornável ou até mesmo que aquela tarefa que você procrastina te traga algo de bom, algo que você deseje muito, ainda assim seu corpo está preparado para evitar todo e qualquer tipo de infortúnio. Portanto, não é possível eliminar algo que existe para te proteger.

Sim, procrastinação é um mecanismo de defesa, você só não sabe do que. Uma mulher sobrecarregada vai procrastinar uma parte do que ela se propõe a fazer porque se ela fizer “tudo o que tem que ser feito”, ela entrará em burnout. Ou vai deixar de fazer algumas atividades porque fazê-las significaria ter menos disposição para brincar com o filho, ou ter menos tempo para ver as amigas. Nada disso é defeito. A procrastinação está apenas te dizendo que, não importa o benefício, o prejuízo com o qual você terá que lidar não vale uma lista de tarefas feitas.

VIDA FINANCEIRA, UM TERRENO FÉRTIL DE PROCRASTINAÇÃO

A vida financeira não está livre dessa sociedade da produtividade. A mensagem mais dita por aí é que alta produtividade também traz mais dinheiro. Por isso, você precisa trabalhar mais, fazer uma planilha de gastos, cortar supérfluos, investir parte do seu salário e fazer seu dinheiro trabalhar para você se você quiser ser financeiramente produtiva. E se você não está fazendo isso, provavelmente não ficará rica. Essa é uma mensagem amplamente repetida ao longo dos últimos anos que tem levado muita gente a correr riscos financeiros e colocado sua saúde na corda bamba, inclusive mental.

Lidar com a vida financeira de um adulto já é difícil por si só, pois não somos introduzidos ao mundo do dinheiro na infância. Um dos temas que mais aparecem em sessão sobre procrastinar uma parte importante da vida financeira é o de conversar sobre dinheiro com parceiros de vida, com empresas, com clientes. Para lidar com as contas de casa, é preciso conversar sobre dinheiro. Para negociar melhores salários e promoção no trabalho, é preciso conversar sobre dinheiro. Para negociar vendas, é preciso não ter medo de falar sobre dinheiro.

Quando, em sessão, sugiro a clientes que levem o dinheiro para a mesa de jantar, a maioria entende a necessidade de se fazer esse movimento, mas procrastina sem saber por quê. Elas compreendem que falar sobre dinheiro com seus parceiros tem um benefício claro e declarado: o casal terá clareza do equilíbrio das contas, o dinheiro não será motivo de brigas. Mas o prejuízo oculto e invisível é, muitas vezes, mais terrível que o benefício que existe: o outro vai achar essa mulher uma megera mercenária que só quer saber de dinheiro. O amor fica em risco porque a imagem que essa mulher acha que está passando é que ela ama alguém até o dinheiro estar na mesa, e depois disso ela só ama o dinheiro. Quem, diante de tamanho prejuízo à sua imagem, não enrolaria o tempo que fosse para conversar sobre dinheiro com quem quer que seja?

NEM TUDO É DEFESA

Nem tudo o que você adia para fazer é procrastinação, por causa do prejuízo que você terá ou do mal que realizar essa tarefa te fará. Encontramos essa palavra no dicionário contemporâneo para justificar nossas atitudes, mas não é possível colocar na conta da procrastinação todo e qualquer adiamento de atividades.

Às vezes, você adia por cansaço extremo. Chegar no final do dia sobrecarregada, precisar de descanso real ou estar à beira de um burnout, tudo isso pode ser motivo para você ter uma lista cada vez maior de atividades não realizadas. 

Você também adia porque aquela atividade não é sua. Quando você começa a acumular tarefas de outras pessoas, atividades cujo benefício apenas o outro desfrutará, sua própria mente vai “sabotar” você. Porque se esforçar, lidar com toda a carga de algo, quando o benefício é todinho de terceiros?

Outras vezes, você adia por raiva. Sim, você leu certo. Por mais que tentemos ignorar a ação de todas as nossas emoções em nossa vida, até aquelas que nos sentimos culpadas por experienciar, a raiva que sentimos por outra pessoa, uma tarefa ou por uma situação pode ser motivo para se adiar algo. Se você sente raiva por te dizerem que você é a única que precisa controlar seus gastos em casa, adiar essa tarefa vai te ajudar a lidar com essa emoção.

PROCRASTINAR MENOS É POSSÍVEL?

Fazer mais é sempre possível. Mas não é qualquer “mais” que cabe na vida humana. Nenhum processo de adiamento de tarefas se resolve com você se forçando a fazer por pura obrigação, fazendo algo contra a sua vontade ou esperando até ter vontade de fazer.

Mais importante que reconhecer a procrastinação, ou se culpar por ela existir em um determinado momento da sua vida, é entender o que está acontecendo dentro de você para que tarefas não sejam feitas. Será que aquela tarefa do trabalho que você enrola para fazer realmente é necessária? Será que você anda sobrecarregada e fazendo cada vez mais, e está procrastinando para não entrar em burnout? Será que aquela conta que você adia para pagar, deixa para última hora ou até esquece, é porque você está com raiva de suas compras compulsivas?

Então, se a procrastinação está aí, troque a pergunta “como parar de procrastinar?” para outra que realmente te ajude no momento: “quais motivos possíveis existem para que essas atividades estejam sendo adiadas?” É o motivo que precisa ser visto, e de alguma forma tenha um caminho de solução, para que você realmente saiba como lidar com a procrastinação.

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