o que aprendi com meu pai sobre dinheiro

O que meu pai me ensinou sobre dinheiro?

Você não conhece meu pai. E nem deveria. Ele é um dos muitos anônimos como quase todos nós, caminhando todos os dias, vivendo sua vida, fazendo seus corres. Tudo bem você não conhecer meu pai… mas seria muito esquisito eu te dizer que eu só fui realmente saber quem ele era quando eu tinha 18 anos?

Não faço parte das estatísticas brasileiras de homens e mulheres que não cresceram com um pai, ou que não tem o nome do pai na certidão. Eu cresci com o meu ali perto, casado com minha mãe. Tenho lembranças dele me colocando no colo, sentado olhando pro tempo. Viajávamos todos para visitar a família dele no interior do Ceará. E, quando ele viajava sozinho à trabalho, sempre dava um jeito de me trazer um presente do caminho.

Meus pais eram casados e tinham a clássica dinâmica de uma família nos anos 80 morando numa capital nordestina: um trabalha, o outro fica em casa. Um sai para o mundo para conquistar, desbravar, ganhar dinheiro. O outro fica para gerenciar a casa e usufruir aquilo que foi conquistado. Eu via a dinâmica da relação, e achava que essa dinâmica me mostrava quem eles eram. Minha ideia de quem era meu pai estava tão misturada à presença de minha mãe que, para mim, ele não existiria sem ela.

Quando eles se separaram, eu tinha 15 anos. E não estava preparada para isso. Não falo sobre o divórcio em si, que foi difícil por si só. Falo sobre a forma como eu os via: eles não eram pai e mãe para mim, eram PAIS. Uma coisa só, fundidos, sem direito à singularidade, desejos próprios ou identidade. Tomei um choque quando, de um dia para o outro, um velho-novo homem chegou na minha porta e me disse: sou seu pai. Era o mesmo cara de sempre, mas de um jeito que eu não conhecia.

Meu pai é esse cara que gosta de estar na vanguarda, de ter tudo do melhor e mais avançado que alguém disser a ele que existe. Vindo de uma família simples, ele se desdobra em mil para conquistar objetos que quase todo mundo quer ter um dia: um carro zero, uma casa com ar-condicionado, uma tv gigante, um sonzão potente, essas coisas. Se alguém dissesse que aquilo era o melhor, meu pai daria um jeito de conseguir.

Eu tinha 18 anos quando ele chegou com uma câmera digital. Você consegue imaginar o que significava, nos anos 90, uma pessoa ter uma câmera digital? Era um luxo para poucos. Nenhum dos meus amigos tinha. Nenhum dos meus outros familiares tinha. Era uma farra nas festas de família… todo mundo queria saber como funcionava, queria tirar foto e ver como tinha ficado.

Mas meu pai tinha uma, e não usava. Quando ele comprou, disse para mim e meu irmão que a câmera era dele, mas quem deveria usá-la éramos nós. Ele conquistara algo que pouquíssimos tinham, e era nossa responsabilidade usufruir, porque ele não queria. Não fazia questão e era genuíno em relação a isso. E foi assim que conheci meu pai, aquele que sabia conquistar o que queria, mas não sabia como usufruir do que conquistou.

Meu pai era (e é) uma força da natureza. Quando colocava uma ideia na cabeça, só parava quando conseguia. Literalmente, conquistava e parava. A fase seguinte, aquela em que ele deveria gozar, aproveitar, usar e sentir prazer com aquilo que conquistou, ele não vivia. Não sabia como viver. Casados, minha mãe cumpria a função do usufruir. Sem ela, a próxima fase ficou vazia e sem sentido.

Meu marido vai ler esse texto e pensar que casou mesmo com a filha do ‘seu’ Luis. Se eu pusesse algo na cabeça, eu só parava quando conseguisse. Conseguia e, então, fim. Não tinha próximo passo. Não havia mais o que se fazer. Eu aprendi que só existia caminho até a conquista, o que viria depois dela seria trabalho para outras pessoas viverem, não eu. Vivia a vida no ciclo da conquista, voltando sempre e sempre para o próximo objetivo, a próxima meta. Parecia que estava avançando, mas andava em círculos.

O pai que conheci aos 18 anos me ajudou a entender a mulher que fui nos 20 anos seguintes, principalmente com dinheiro. Dinheiro era o jeito que eu conseguia mostrar, para mim, que eu tinha chegado lá. Conquistado algo. Se eu queria um vestido, comprava sem me importar com o preço. Na hora de usar, sentia como se eu não tivesse o que vestir (mesmo com um guarda-roupas abarrotado), e era uma sensação verdadeira até certo ponto. Afinal, nada do que eu tinha comprado foi com a intenção de vestir, de usufruir, de me satisfazer usando. Mas se alguém me pedisse para usar, eu emprestaria feliz da vida.

E, olha, nem pediria de volta. Não por desapego material, mas por ter uma real dificuldade de imaginar o que fazer com aquele objeto, já que ele perdeu seu sentido no momento que o possuí. O sentido da vida tinha sido conquistar, o usufruir pertenceria exclusivamente ao outro. E isso era sinônimo de felicidade e vida com propósito.

Agora, enquanto escrevo, memórias começam a vir à mente de como eu fui, aos poucos, me remontando para deixar de ser tão fortemente a filha desse pai. Quando percebi que eu comprava uma bolsa apenas porque uma amiga usaria, já que eu não sabia como aproveitar minhas conquistas, passei a me fazer uma pergunta antes de comprar qualquer coisa: se ninguém puder fazer proveito disso, eu compraria só para que eu, e somente eu, fosse feliz com esse objeto?

Ultimamente, tenho pensado em como desejo comemorar meus 50 anos. Nesses momentos, mesmo com 46 anos e já tendo mudado um bom bocado, me espanto como sou tão parecida com ele nos pequenos detalhes daquilo que desejo. Eu descobri, recentemente, que tenho um sonho antigo de mergulhar com baleias, onde seja seguro e permitido. Nunca havia admitido que queria fazer isso, porque era algo muito meu, e não o que outra pessoa também gostaria de fazer. Desejo conquistar e usufruir disso, mas bancar isso ainda é um caminho em construção.*

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Feliz dia dos pais.

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*Mostrei o texto para meu marido antes de publicar, e eis que ele me disse que escrevi errado esse parágrafo. O certo seria: “tenho um sonho de nadar com baleias e em vez de aproveitar tudo sozinha, convidei meu marido pra ir junto.” Não é assim que me lembro das coisas e, se eu não lembro, não fiz. Ele que lute para aceitar minha versão dos fatos. Kkkkkkkkk

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