Falar sobre dinheiro virou comum. Mas conversar é raro.
Temos falado mais sobre dinheiro comparado há anos atrás. Segundo a ANBIMA, a quantidade de influenciadores financeiros saltou de 266 (2020) para 904 (2025), bem como a audiência interessada no assunto aumentou mais de 300%, saindo de 74 milhões de seguidores para cerca de 310 milhões de seguidores nesse período. Claro que o aumento da quantidade de conteúdos financeiros não significa que esse assunto esteja normalizado para a maioria das pessoas, mas existe uma demanda de se ouvir mais sobre dinheiro. Mostra como nossos hábitos estão mudando aos poucos. Se antes você ouviria de seus mais velhos que dinheiro é assunto para se discutir exclusivamente em família, que é proibido falar de dinheiro com estranhos para não atrair inveja, cobiça ou mau olhado, nos últimos anos, há um esforço coletivo para se normalizar falar sobre dinheiro no dia-a-dia. Mas falar e conversar são duas coisas diferentes.
Falar sobre dinheiro é a transmissão unidirecional de uma mensagem. Ou seja, quem fala expressa uma opinião, um segredo, uma informação para um ouvinte. Há uma distância no ato de falar que mostra que uma parte está ativa no momento, passando uma informação, enquanto outra está passiva, recebendo sem devolver nada ao mensageiro. Falar sobre dinheiro é crucial no momento atual porque normalizar sua presença em espaços que habitamos nos prepara inclusive para nos educarmos sobre ele. Quanto mais educados somos financeiramente, melhores as chances de tomarmos decisões que nos tragam sensação de segurança e proteção. Mas conversar sobre dinheiro é diferente porque exige uma etapa a mais no processo: a troca. Ela requer que você se conecte, se envolva, interaja, exponha não apenas o que está na sua mente, mas também como você se sente, como você se relaciona, como o assunto impacta sua vida, para então incluir o outro no processo.
O que parece conversa, mas é só troca de fatos.
Às vezes, na minha prática clínica, clientes me relatam que é fácil conversar sobre alguns assuntos, mas sobre outros parece que faltam palavras. Como se algo neles bloqueasse o ato de sentar e genuinamente abrir o coração para expor o que tem dentro de si mesmo sobre determinado assunto. E parece que quando esse assunto é dinheiro, a parte mais óbvia é focar em fatos: a vida está cara, os boletos não param de chegar, vamos reformar a casa, precisamos economizar, etc. Dá uma impressão de que o dinheiro está realmente sendo discutido na mesa de jantar, mas não está. O que acontece é mais uma partilha de informações do que uma troca entre duas pessoas.
O que mais encontro em consultório são histórias assim: duas pessoas, por exemplo, decidem que é hora de ter filho. Começam a conversar sobre o que acham importante nesse processo: como é a divisão de tarefas nos cuidados com ela, que tipo de educação a criança vai ter, como vamos bancar uma vida confortável para ela, se devemos ou não fazer uma poupança para ela. Tudo isso é importante porque um filho impacta a vida do casal como um todo e especialmente a vida financeira. Mas a conversa permanece focada em decisões práticas, inclusive sobre dinheiro. Foca-se em aspectos concretos (pagar escola, plano de saúde, fraldas) e não como ambos se sentem em relação filhos e dinheiro: como era a vida financeira da minha casa enquanto você crescia e você tem medo que se repita? Como você se sente sabendo que uma parte do seu salário agora vai ser direcionado à segurança de uma criança e você vai precisar diminuir as compras por impulso? Como seu coração bate, seus ombros tensionam e quais emoções vem à tona ao pensar em uma criança e segurança financeira? Percebe a diferença? Citei ter filhos, mas existem muitos outros exemplos: decidir casar, comprar uma casa, mudar de profissão, abrir um negócio e outras decisões que envolvem ou impactam financeiramente.
Antes de conversar com o outro, ouça a si mesma
Claro que chegar nessa profundidade de conversa não é uma atitude natural. Não há nada de errado com você se está difícil falar sobre dinheiro. É que não é possível manter uma conversa fluindo apenas uma lista de perguntas sobre o passado ou sobre sentimentos, e os fatos sozinhos não parecem ser suficientes para acalmar um coração apertado. Uma conversa sobre dinheiro, para realizar sua função, precisa ser desenvolvida individualmente primeiro. Levamos para nossas conversas diante do outro informações que já mapeamos dentro de nós. Se você nunca pensou sobre como era a vida financeira na sua família de origem, como trazer isso para uma conversa com o outro? Faltarão palavras. E se te faltam palavras, você vai se sentir inseguro para entrar nesse território.
É por isso que conversas sobre dinheiro entre duas pessoas são mais raras. Existe um desafio anterior a ser atravessado: fazer isso primeiro consigo mesmas. Uma coisa é você reconhecer que fica ansiosa quando chega a fatura do cartão, outra bem diferente é dar nome para essa ansiedade, saber de onde ela vem, o que ela representa para você, o que ela te leva a fazer. Para que depois de compreender tudo isso, poder compartilhar com alguém numa conexão genuína e segura.
Na prática, como é conversar consigo mesma?
Vamos imaginar juntas esse trabalho interno acontecendo. Digamos que você deseje conversar com seu chefe sobre um possível aumento salarial. Talvez a primeira ideia que chegue em sua mente é: verificar há quanto tempo você não recebe um aumento, listar suas competências e resultados, fazer um levantamento informal sobre como é o salário para a mesma posição que você tem em outras empresas. Fatos importantes, claro. Mas na hora da conversa real, suas emoções te sequestram e você fica sem palavras. Tem dificuldade de argumentar, mesmo com firmeza de que todos os fatos apontam para um aumento de salário merecido e não sabe o que está acontecendo. Em sessão, num caso como esse, eu faço perguntas como: o que significaria, de positivo e de negativo, um aumento de salário para você? como era na sua infância quando você pedia alguma coisa para você mesma? o que seus pais te ensinaram sobre seu lugar e seus direitos no mundo? Talvez você descubra que um aumento faria você ter um salário mais alto que seus familiares e você se sentiria culpada por isso. Ou compreenda que sente medo de defender o que é seu e você merece porque cresceu ouvindo que você tinha que ser boazinha e dividir o que é seu com todo mundo. Quem sabe descubra que fica triste em negociar um aumento porque se você fosse boa mesmo te dariam isso sem que você precisasse pedir, duvidando de sua própria capacidade.
Percebe a carga emocional que poderia estar associada a uma conversa franca sobre aumento salarial? Essa carga não é necessariamente ruim, mas quando ela não está mapeada e nomeada, ela bloqueia uma conversa de acontecer. Se você, em sessão, compreendeu, mapeou, nomeou tudo isso, no momento de negociar o aumento salarial algo diferente pode acontecer: dificilmente você será refém dessas emoções e poderá agir de forma mais neutra diante do seu chefe, facilitando a negociação.
Agora fica a pergunta para você: será que falar sobre dinheiro é o suficiente para você ou você já deseja ter conversas reais sobre dinheiro?
Um abraço,
Sara.
