Bets e cigarros não são a mesma coisa.

É 2026, e estamos em ano de Copa do Mundo. Se você tem acompanhado as transmissões, sabe que a publicidade de aplicativos de apostas, as chamadas bets, aparece em todo lugar. Nos últimos anos, uma grande discussão sobre o tema tem ganhado força e, recentemente, a emissora CazeTv é alvo de investigação do Ministério Público por incentivar seu público, durante os jogos, a fazer apostas em tempo real. Um argumento de senso comum que mais ouço é: existem publicidade de cigarros e bebidas alcoólicas há anos, porque agora estamos nos incomodando com as de bets? Mas será mesmo que essa comparação é válida


Publicidade de bet e publicidade de cigarro: será que estamos comparando a mesma coisa?

O processo de vício, neurologicamente falando, não difere vício em substâncias químicas ou em comportamentos de risco. Teoricamente, uma publicidade com substâncias viciantes legalizadas (bebida alcoólica e cigarros) poderia ser um gatilho de consumo tanto quanto a de bets, mas a realidade é diferente porque ambas têm arquitetura de escolhas diferentes. A principal diferença entre as duas publicidades é que as bets não vendem um produto, elas vendem uma experiência disponível na mão de qualquer pessoa durante 24h. Há uma diferença de gatilho comportamental entre você ser impactado por uma publicidade de bets, feita por uma voz de autoridade no setor (atleta, comentador ou narrador esportivo) com um QR code durante o intervalo do jogo indicando quais as apostas com melhores retornos, ao alcance de sua mão, e a publicidade de bebida alcoólica, que até pode mostrar o consumo, mas não tem uma autoridade da área embasando ou te pede para abrir uma latinha agora. Ou seja, o tempo entre estímulo da publicidade e a resposta de quem está sendo impactado por ela é menor nas apostas do que a de substâncias legalizadas: as bets estão a um clique de distância.


Apostas existem há 12.000 anos. O problema não é o jogo.

Da mesma forma que a indústria tabagista não inventou o fumo e a de bebidas não inventou o álcool etílico, as bets não inventaram as apostas. Um estudo recente de Robert J. Madden, publicado pela Cambridge University Press, mostra que indígenas nativos americanos já usavam uma espécie de dados e faziam apostas não como forma de ganhos monetários, mas para criar um ambiente neutro para que diferentes pessoas, de diferentes grupos, pudessem interagir, realizar trocas e formar alianças. Mais do que entretenimento, os jogos eram uma forma de desenvolvimento de cultura e interação social. Ou seja, as bets são monetizadas usando um esquema que já está presente na cultura humana há mais de 12.000 anos.

Por isso, debates sobre aplicativos de apostas precisam ser vistos para além do olhar moral, porque nos distancia de um entendimento mais realístico sobre o que realmente não está funcionando no mercado, e como criar barreiras para evitar que se instale processos de vício, que são mais complexos de se lidar.


Seu cérebro não sabe que está sendo usado.

O senso comum diz que se vicia quem quer, mas a ciência já entende que a instalação de um vício tem um mecanismo neurológico já mapeado. Autores como Anna Lembke (Nação dopamina) e Daniel Z. Lieberman (Dopamina: a molécula do desejo) reuniram em seus livros evidências que nos mostram como o mecanismo de busca e recompensa, mediado pela dopamina, está na base da instalação de um vício, seja ele de comportamento ou de substâncias químicas. Quando em nós surge um desejo, é o circuito de dopamina o responsável por nos manter focados na expectativa de recompensa, não pela posse de um objeto em si. Para a dopamina, ter coisas não importa; o que realmente ela quer é conseguir o que se quer, para logo depois passar para o próximo desafio a ser vencido. Ou seja, as bets tendem a usar nosso próprio circuito fisiológico para estimular a busca por algo brilhante e novo, para o sucesso do acerto, para vencer desafios, com um agravante de ter uma janela de segundos entre o estímulo ao desafio e a resposta de uma pessoa ao pegar o celular e clicar em “apostar”.


Não é falta de sorte. É design.

Porém, por mais que a instalação de um vício no cérebro seja igual comportamentos e substâncias químicas, existem fatores específicos envolvendo o vício em bets que agravam o processo. Diferente da bebida alcoólica que altera o funcionamento da mente, as apostas se utilizam da crença ilusória de que você pode dominar o resultado com a estratégia correta, alimentando a ilusão de que aquela perda foi um simples erro de cálculo. Agora a pessoa aprendeu algo, entendeu onde errou, e vai acertar na próxima vez. Além disso, o algoritmo dos aplicativos, bem como toda a informação gráfica, é construído para mostrar ao apostador que ele quase acertou. Essa sensação de “quase vitória” age, no cérebro, como um estímulo a se arriscar cada vez mais na esperança que, na próxima vez, dê certo. Aliado a isso, como a dopamina só se interessa pela busca e conquista e não de propriedade, a imprevisibilidade de alcançar essa recompensa reforça o próprio mecanismo, pois cria uma ilusão de que pode não ter sido dessa vez que o apostador venceu, mas na próxima dará. Por último, diferente de uma substância química que exige que uma pessoa saia de casa para conseguir seu objeto de desejo, as bets estão ao alcance das mãos, na distância de um clique.


O vício em apostas não aparece no corpo.

Se você já interagiu com alguém que desenvolveu um vício, sabe que o consumo de substâncias químicas mostra sintomas físicos: você vê a pessoa cambaleando, você sente o cheiro de álcool ou fumo, você escuta a fala embotada, você percebe a frequência de uso da substância. Os sinais de que aquela pessoa fez uso de substâncias é visível para quem está ao redor, o que não acontece em bets. A pessoa que desenvolveu vício em apostas vai demorar para mostrar sinais claros de seu próprio comportamento. Ela vai esconder suas perdas, vai acreditar que pode recuperar o dinheiro perdido se apostar mais, vai deletar o aplicativo e reinstalar novamente. A baixa barreira de acesso, a janela entre estímulo publicitário e clique de aposta, a ilusão de controle e outros fatores tornam o vício em apostas relativamente fácil de se instalar e demorar mais para mostrar sinais visíveis de que aquela pessoa precisa de ajuda.

E, quando os sinais de vício demoram tanto para serem percebidos por amigos e familiares, é comum nos voltarmos para a questão de sermos todos adultos responsáveis. Afinal, é só jogar com responsabilidade, e o vício não se instala, mas essa não é uma crença pautada em dados científicos. Gabor Maté em seu livro “No Reino dos Fantasmas Famintos” afirma que, quando o circuito da dopamina está sequestrado pelo vício, a parte do nosso cérebro responsável pela força de vontade e nossa capacidade de resistir a impulsos perde, aos poucos, sua força.


Força de vontade não é o problema.

Vício comportamental em apostas não é construído apenas em pessoas fracas de caráter ou sem força de vontade. Ao contrário, qualquer pessoa pode ceder ao mecanismo porque ele é construído para que, uma vez exposto a ele, aquela pessoa tenha cada vez mais dificuldade de parar.

Depois de entender como os aplicativos funcionam e como eles usam nossa própria biologia a seu favor, podemos entender que equiparar vício em substâncias químicas legalizadas como fumo e bebida alcoólica impede que pessoas vulneráveis tenham acesso à ajuda. E quanto mais o debate sobre as bets ficar apenas no aspecto moral, tentando estabelecer qual indústria é mais prejudicial, menos a pessoa exposta às bets se reconhece em comportamento de risco, mais tarde a ajuda tende a chegar.

Se você chegou até o final do texto, te convido a refletir: será que o problema é apostar de forma irresponsável ou será que o sistema foi construído para que, uma vez começado, você não consiga parar?


Se quiser ler algo mais focado em vícios, esse texto vai elucidar algumas dúvidas.

Um abraço,

Sara Matos

Psicóloga Clínica

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