Um olhar trocado, um jantar marcado, vocês se apaixonam e começam a namorar. O amor está no ar! Depois de um tempo, e algumas conversas sobre “você quer ter filhos?” ou “sua mãe não vai morar com a gente, certo?”, e entendem que é hora de morar junto, casar. Cerimonia, festa, lua de mel, e a realidade do casal vivendo debaixo do mesmo teto começa. Depois de tudo isso vivido, você descobre um segredo terrível que essa pessoa, que até semana passada você queria ficar velhinho junto, esconde. Opa, se você pensou em “uma outra família!”, você está errado. Até porque, a principal causa de divórcios não é infidelidade, é dinheiro. Você descobre que o outro tem dívidas rolando ladeira abaixo, gasta como se não houvesse amanhã e mente dizendo que está com controle de tudo, nunca pensou em aposentadoria e não constrói patrimônio, é um ralo de dinheiro que parece não ter fim. Ou tem tanto medo do futuro que tem crise de ansiedade só de pensar em gastar.
As brigas começam a acontecer todo final e começo de mês quando o salário cai e as contas chegam. Você ama e segue acreditando que o outro vai mudar, e não muda. Mais uma entrega em casa. O outro chega com uma sacola de uma compra, “mas foi baratinho! não mexe no orçamento”, e pode ter sido até barato, mas esse gasto te dá taquicardia e você não sabe porque. O tempo passa, a sensibilidade ao tema dinheiro aumenta até o ponto que pedir uma sobremesa vira sinônimo de discussão. Como um comportamento financeiro assim passou despercebido?
Não é que tenha passado despercebido. O assunto dinheiro dificilmente é considerado algo importante de ser conversado. Durante a fase de namoro, vocês vão se encantar, aprender a admirar um ao outro, conversar sobre filhos, viagens que farão juntos, se querem morar em São Paulo ou Piraporinha do Norte. O foco é quase todo voltado para entender se vocês tem química, afinidade, se há a possibilidade de isso dar certo. Dinheiro parece não ser problema porque, aparentemente, não se reconhece ainda no namoro que ele é um fator que impacta numa relação. E falar de dinheiro mata o romance. Afinal de contas, como disse Ivete Sangalo, se há amor, todo o resto se ajeita. Só que não é assim que a realidade se mostra.
Vou deixar claro desde já, briga envolvendo dinheiro nunca é sobre números. Tem casais que sabem quanto cada um ganha, tem clareza sobre quem paga o que na casa. Números na mesa de jantar fazem parte da rotina. Mas sabe sobre o que não conversam? Sobre como era o dinheiro em casa quando você crescia. Seus pais brigavam e jogavam um na cara do outro quem ganha mais, quem comprou o que? Ou sobre o que é importante para você na criação de filhos: uma escola de alto padrão ou ter experiências e boas memórias? É o que você aprendeu sobre dinheiro e nunca questionou, quais medos seus surgem quando o dinheiro entra na roda, sobre como o dinheiro dirige seus valores. No fundo, faltam conversas honestas que tragam para a mesa de jantar não apenas números, mas como o dinheiro te faz sentir.
Há uma diferença entre o que se fala e o que se escuta enquanto conversamos que é comum de acontecer. E se o dinheiro está envolvido, essa diferença pode agravar questões do casal. Um dos parceiros fala “precisamos economizar” e o outro escuta “não podemos mais aproveitar a vida”; ou então “vamos viajar?” é ouvida como “vamos nos endividar e colocar em risco nosso futuro?”; ou até “você comprou isso?”é ouvido como “não posso mais me cuidar?”. Há uma tradução simultânea que acontece entre a fala e a escuta, e essa tradução é mediada pelas emoções, pelas crenças, pela história de vida de ambos, pelas expectativas, não pelos números. Se conversas entre casais não levam em consideração essa vida emocional um do outro, conflitos são não apenas inevitáveis, mas também difíceis de serem contornados.
A grande maioria dos casais tem dificuldade de expor seus sentimentos e aquilo que está dentro de si para o outro, seja por desconhecimento dessa vida interior, por dificuldade de dar nome ao que sente, ou ainda pela insegurança de como mostrar aquilo que só ela sabe vai abalar a relação. O que o outro pensaria de você se soubesse que você tem um desejo tão grande de segurança que prefere a dívida de financiar um apartamento a morar de aluguel e investir o dinheiro? Ou que você se sente insegura com sua aparência e comprou aquele vestido sem pensar muito no orçamento, e não porque você estava praticando automerecimento?
O dinheiro é influenciado pelas nossas emoções. O foco rígido em construir patrimônio pode vir do medo de a família acabar, porque as dívidas de um casal foram motivo de separação. Comprar sem controle pode ser um efeito de uma necessidade de validar seu próprio valor pelo que você mostra que tem, não porque você está seguro em seu valor. Crescer em um lar, ficando ali no cantinho sentindo medo e impotência por não poder fazer nada para ajudar, quando havia escassez de recursos pode ser a base para sentir ansiedade financeira toda vez que você olha a fatura do cartão. O dinheiro nunca é apenas números, e é preciso normalizar que casais falem sobre tudo o que o dinheiro significa para eles.
A forma mais óbvia (e relativamente mais segura) é falar sobre números. Eles tem lógica, são práticos, parecem mais previsíveis. Sem levar em consideração custo de vida e outras informações de mercado, mil reais em qualquer parte do Brasil são mil reais, e se eu gastar quatrocentos, me sobrará seiscentos reais. Uma informação objetiva, sem muita margem para discussões, certo? O número não fala tudo. Porque gastar 400 reais em um sapato enquanto a conta de luz está atrasada não é a mesma coisa que gastar a mesma quantia para pagar a parcela do apartamento enquanto está economizando no cafezinho. Ambas as situações refletem uma vida interior completamente diferentes, com historias de vida diferentes, com traumas financeiros diferentes. A primeira pessoa talvez tenha crescido usando tênis furados porque a família nunca tinha dinheiro para comprar sapatos novos; a segunda pode ter crescido num lar que tinha ameaças de despejo constante. O que parece absurdo para você faz sentido para quem está lidando com seu dinheiro de uma determinada forma.
Por isso, antes de casar, é importante que conversas sobre como suas emoções afetam suas decisões financeiras venham para a mesa de jantar. Conversas que vão muito menos pelo caminho de “você quer falir nossa família gastando desse jeito!” e mais por “era comum eu ver meu pai, único provedor da casa, brigando com minha mãe por gastar demais, quando na verdade ela comprava o básico. Parecia que havia amor entre eles até falar sobre dinheiro… não quero que isso aconteça conosco, por isso preciso saber o que aconteceu para chegarmos nesse ponto.” Perguntas como, mas não resumidas a isso: qual seu maior medo financeiro? o que faz você se sentir seguro, quando o dinheiro está envolvido? o que você faz quando a vida fica estressante e como o dinheiro te ajuda a lidar com estresse? Percebe a diferença de profundidade e maturidade de conversa sobre dinheiro quando você sai do prático e objetivo, porém superficial, para algo íntimo e vulnerável?
Aquele casal que se conheceu e se apaixonou, tem muitas chances de construir uma relação segura e longeva se a vida financeira a dois for conversada na mesa de jantar não apenas com contas expostas, mas também com coração aberto. Antes de engravidar, conversar sobre filhos e como o dinheiro pode fazer você se sentir orgulhosa por dar acesso a uma boa educação para continuar uma tradição de família. Antes de comprar um imóvel, conversar sobre onde morar e sobre como uma casa faz você se sentir segura, mesmo que venha com um financiamento de 30 anos. Antes de casar, conversar sobre em quais dores o dinheiro toca e em quais alegrias ele participa. É um tipo de conversa que vocês terão por uma vida toda e é uma forma bem real de você saber se essa relação é duradoura.
Um abraço,
Sara Matos.
