Eu achava que era procrastinação, mas era cérebro “apodrecido”

Vício em telas e brain rot são muito mais comuns do que imaginamos. Seus efeitos parecem estar visíveis, mas acho que estamos em negação. Bom, eu estava, e paguei um preço alto por isso.

Quero te contar minha história com telas, consumo de conteúdos em redes sociais, meus sintomas e o caminho que eu ainda estou construindo para mudar essa relação. Sim, ainda estou construindo, todos os dias um pouco, mas já vejo resultados visíveis. Quem sabe minha história seja um empurrão para você também rever sua relação com redes sociais.

Como começou

Eu já venho há 2 anos fazendo detox de compras por impulso nos últimos meses do ano. Em 2024, no meio do detox de compras, eu tive um “clarão mental” (meu jeito de falar que tive um insight) que esse detox deveria ser estendido ao uso de redes sociais. Quando fui avaliar meu tempo de tela, vi que estava ficando entre 3,5 a 4h/dia em redes sociais, só rolando feed. Mesmo sendo bem mais baixo que a média do brasileiro, o segundo maior consumo mundial de telas com 9,5h/dia, eu tomei um susto porque achava que não ficava mais que uma hora. Eu não sabia que essas horas estavam estava me prejudicando tanto, mas achei por bem incluir um detox de redes. O resultado me impressionou…

Meus sintomas

É muito curioso como os sintomas foram aparecendo, se instalando e eu fui normalizando tudo. Eu amo ler livros, só não conseguia mais sentar para ler um livro sem ter que ficar relendo a mesma página para entender o que estava escrito, ou alternando o tempo todo entre o livro e a tela do celular. Eu passei a sentir ansiedadequando as coisas que eu queria não iam tão rápido quanto eu imaginava que deveriam. Eu achava que deveria ser mais veloz, mais rápida em entregar, e a velocidade era um fator crucial, mesmo que para isso eu perdesse conteúdo. Eu ficava angustiada quando ia para a pós-graduação e o tempo parecia devagar demais. Quando eu ficava impaciente e frustrada, eu abria a tela.

Não conseguia sentar para escrever textos, curtos ou longos, porque me distraía com qualquer coisa. Perdia o foco rápido, o interesse nas coisas. Perdi as contas de quantas vezes cheguei num cômodo da casa e me perguntei “o que vim fazer aqui mesmo?” sem conseguir lembrar de coisas que tinham acabado de acontecer. Eu estava botando tudo isso na conta do “estou ficando velha” (e eu tenho só 45 anos!), ou na conta da perimenopausa. Eu me perdia fácil na linha de raciocínio, esquecia pequenas coisas, esquecia palavras que queria falar. Mas tudo isso era sintoma do brain rot, que eu expliquei um pouco no texto passado.

Quando comecei o detox de redes sociais, aos poucos foi ficando claro que meus sintomas não eram de crise de ansiedade, depressão, burnout, perimenopausa ou qualquer outro aspecto de saúde mental. Eram brain rot (cérebro apodrecido) pelo consumo excessivo de conteúdos superficiais, repetitivos, sem profundidade ou complexidade alguma. Conteúdos que não desafiavam meu cérebro a se manter ativo por não apresentar resistência nenhuma, não ativavam minha reflexão, nem estimulavam meu raciocínio.

Estratégias e resultados

PRIMEIRA DECISÃO: Comecei todo esse movimento por causa do detox de compras por impulso. Minha primeira decisão foi me impor um detox extra: o de um dia na semana sem telas e um limite de 15 minutos por vez nos outros dias. O resultado inicial foi impactante. Meu tempo de tela reduziu de 3,5h para 1h por dia. 

SEGUNDA DECISÃO: Depois de umas semanas, não por causa do detox e sim para preservar a bateria do celular, coloquei uma segunda decisão: eu tirei redes sociais do celular e comecei a usar só em tablet. Isso me trouxe uma ajudinha extra para me manter nessa 1h por dia, porque era muito mais trabalhoso e cansativo ficar com o tablet na mão.

Essas duas decisões me deram bons resultados → minha ansiedade reduziu drasticamente, passei a sentir menos fome e comer mais moderadamente. Passei a dormir melhor, a noite toda, sem acordar com aquela sensação de ter dormido a noite toda e acordar cansada como se não houvesse feito um descanso apropriado. Passei a me lembrar, aos poucos, de pequenas coisas que eu queria fazer quando estava em cômodos da casa. Consegui escrever meu TCC, que estava com muita dificuldade de sentar e focar para fazer, e tirei 10 com elogios do professor.

TERCEIRA DECISÃO: Achei já ótima essa mudança, mas outros sintomas continuavam os mesmos. Eu tinha a sensação de que estava tão cansada que não conseguia trabalhar direito. O mais difícil era que isso mexia com a minha ideia de quem eu era e minha autoestima. Eu não conseguia mais ler sem ficar parando, esquecendo, tendo que reler tudo, me sentindo frustrada e desistindo dos livros. Procrastinava pequenas tarefas porque parecia que não conseguia ir até o fim delas. Tudo me tirava o foco. Foi então que tomei uma decisão mais radical: toda vez que eu tivesse vontade de entrar em redes sociais sem propósito definido, eu ia fazer qualquer outra coisa usando o corpo. Bateu a vontade? Vou fazer um bolo. Vou colocar roupa para lavar. Vou me alongar na sala. Até agachamento eu fiz para não entrar em redes sociais.

RESULTADO: E, magicamente (a gente sabe que não há mágica, e sim desejo, decisão e ação), eu voltei ao funcionamento normalizado. Parece que existia um outro-eu dentro de mim aguardando para surgir. Voltei a ler livros, a conseguir me focar novamente, faço uma coisa de cada vez, minha comida não tem mais sabor de Instagram (ou seja, queimada!).

O caminho que construí ao longo do ano, de janeiro até agora, me ajudou a recuperar meu cérebro e seu funcionamento normalizado. Mas eu ainda estou em processo, porque a vontade de voltar pra tela é como um cabo de guerra.

Não há um caminho único

Eu sei que esse tema ainda não está plenamente discutido nas rodas de conversa por aí. Quando converso com pessoas, o que mais escuto é: “eu acho que redes sociais não me fazem bem… mas eu tenho tudo sob controle!” Não, não temos nada sob controle… na verdade, nem reconhecemos os efeitos nocivos do consumo excessivo de conteúdos rasos! Mas eles estão mais presentes do que imaginamos.

E também não há um caminho único de saída! As decisões que tomei foram muito intuitivas, baseadas na realidade que eu ia entendendo que estava acontecendo e como eu passei a agir para sanar o que estava tomando consciência. Ou seja, “passo 4h? ok… farei isso-e-aquilo para passar apenas 1h”“Tenho acesso direto à tela? Vou usar só no tablet…”

Talvez para você tudo seja diferente… Ou não!

Te contei aqui meu caminho não para que te sirva de exemplo ou modelo definitivo, mas para que seja inspiração. Eu não me sinto fora de perigo, ainda mais porque todos os dias, quando sinto emoções mais fortes, me sinto frustrada, triste, com medo, com raiva, com vergonha e etc, eu pego o celular. Virou um comportamento automático que eu tenho ficado cada vez mais consciente de que existe. O impulso não passou… eu hoje só tenho mais gerenciamento sobre ele e encontrei estratégias pessoais para não ser refém dos meus comportamentos.

Só quero te contar que esse caminho que construí me ajudou a recuperar meu funcionamento normal. Hoje, voltei a me sentir mais eu mesma.

Pensa aqui comigo…

Te deixo aqui no final com uma pergunta: será que não está na hora de você começar a repensar sua relação com conteúdos superficiais e acelerados?

Talvez os sintomas que você esteja sentindo, se forem como os meus, não sejam de ansiedade ou depressão. Talvez você não precise de mais foco, mais disciplina, mais tarefas. Talvez você precise de menos tempo de tela consumindo conteúdos rasos e rápidos.

Pensa sobre isso.

E, se possível, compartilha esse texto com mais gente… 

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Um abraço,

Sara.

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