Vício nunca foi sobre falta de força de vontade

Bom, se você não anda desconectado de tudo, deve ter visto que nos últimos meses uma pauta tem ganhado destaque na mídia brasileira: o aumento de pessoas endividadas, principalmente por conta de apostas on-line. A chamada “CPI das bets” expôs uma realidade preocupante na qual influenciadores são pagos para divulgar apostas on-line e jogos de azar com avisos que soam mais como alívio de culpa do que como responsabilidade: “aposte com consciência”, “saiba que você pode perder”, “se você tiver algum tipo de vício, é recomendado que você não jogue”. Mas será que sabemos o que é um vício?

Quando se fala em vício, há um senso comum que nos leva a pensarmos apenas em drogas ilícitas, em dependência química severa ou em casos extremos de destruição da própria vida de quem usa. Há ainda quem ache que é apenas uma questão de desequilíbrio neurológico ou bioquímico: o vício como um desequilíbrio no cérebro e, por isso, basta tomar um remédio para eliminar esse sintoma. Embora essas ideias façam parte da explicação, elas são limitadas e incompletas. Isso porque vício não é sobre substâncias químicas ilegais ou não. É sobre o que se busca de forma compulsiva no curto prazo, apesar das consequências negativas no longo prazo.

O médico canadense dr. Gabor Maté, especialista em traumas e adicção, define vício como:

“Vício é qualquer comportamento frequente, relacionado ou não à substâncias químicas, que alguém se sente compelido a repetir apesar do impacto negativo em sua vida e na vida dos outros.”

Essa definição já nos revela o quão incompleto é nosso olhar para a adição. Ela não inclui apenas o uso de substâncias químicas potencialmente viciantes, sendo elas lícitas ou ilíticas, mas também os comportamentos repetitivos, compulsivos, às vezes até socialmente aceitos, como fazer compras impulsivamente, usar redes sociais sem parar, trabalhar de forma exaustiva, comer escondido ou apostar com dinheiro que deveria ser usado para sustentar partes da vida.

A dificuldade de muitas vezes pessoas buscarem ajuda está no erro de achar que vícios comportamentais são apenas “mania”, “maus hábitos”, falta de disciplina ou um “problema moral” (assim mesmo, entre aspas, para que você compreenda que nenhuma dessas expressões é verdadeira quando se trata de vícios). Reduzimos a seriedade do assunto ao dizer que basta força de vontade para mudar. Vício é uma palavra simples que esconde uma questão complexa, que não tem como ser endereçada com soluções rasas e simplórias. Sua raiz não está apenas na dependência de substâncias químicas ou um mero desequilíbrio fisiológico. É preciso que compreendamos suas causas também emocionais, psicológicas, sociais, culturais, políticas e até mesmo espirituais.

Gabor Maté descreve quatro aspectos observáveis que podem ajudar você a compreender se há comportamentos de vício em pessoas de sua relação, ou quem sabe em você mesmo.

O primeiro é a obsessão ou compulsão pelo objeto de adicção: a mente da pessoa gira em torno daquilo, seja a substância, o objeto ou o comportamento. É como se nada mais importasse, como se a vida fosse só sobre aquilo. O segundo aspecto é a perda de controle. Mesmo quando a pessoa acredita que consegue parar a qualquer momento, basta um gatilho — uma emoção difícil, um conflito, um vazio — para que todo o ciclo recomece. E, uma vez iniciado, devido à reconfiguração neurológica feita pelo vício, não é possível usar a força de vontade para interromper o processo da busca por aquilo que se tem compulsão.

O terceiro ponto é a recaída, mesmo sabendo dos danos causados à si e ao outro no processo. Hoje, já se sabe que pessoas que não tem conexão social significativa, que sofrem isolamento ou não tem suporte emocional, tem de 80% a 90% de chances de recaírem em velhos padrões de uso e compulsão, mesmo com todas as promessas feitas. Por isso é crucial, no processo de recuperação, que não se faça isso sozinho. E o quarto aspecto é a fissura: aquele estado de inquietação, irritação, ansiedade que surge quando o objeto do desejo não está disponível. A mente busca justificativas, manipula ou distorce a realidade para conseguir o que quer. Assim que ela consegue, a euforia passa e ela só consegue pensar “porque eu fiz isso?”

Esses quatro sinais ajudam a diferenciar um comportamento comum de algo mais profundo. A verdade é que nem tudo que se repete é vício. Mas todo vício carrega esse peso: ele invade a autonomia, esgota a energia vital e, pouco a pouco, rouba a liberdade de escolha.

A ideia de que vício se resolve com força de vontade é não só ineficaz, mas também é cruel. Isso porque faz com que a pessoa carregue culpa, vergonha e fracasso em algo que ela já não consegue controlar sozinha. É por isso que precisamos de mais compreensão, compaixão, escuta, presença, não de julgamento.

Vício não é um erro de caráter. É um sintoma que mascara algo mais doloroso que acontece na alma. No próximo texto, quero continuar essa conversa te mostrando o que está por trás de um vício, o que ele revela, o que ele tenta calar, e por que muitas vezes ele é a única forma que uma pessoa encontra para sobreviver emocionalmente.

Se esse texto te tocou ou te fez lembrar de alguém, talvez seja um bom momento para olhar com mais gentileza para o que está acontecendo aí dentro.

E se quiser também acessar o episódio do podcast no qual falo mais profundamente sobre isso, você pode ouvi-lo no Spotify ou YouTube.

Um beijo e até a próxima news…

Sara.

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