Você viveria feliz se morasse na sua cabeça?

Vamos começar essa conversa com uma imagem… Se existisse uma tela que mostrasse para o mundo como está sua cabeça hoje, o que ela mostraria? Uma mente bagunçada e confusa? Acumuladora? Caótica?

É difícil para a maioria de nós reconhecer que a vida de dentro e a vida de fora não se parecem em nada uma com a outra. Por fora, a agenda está com compromissos encaixados, as planilhas em dia, tudo tem seu lugar. Por dentro, está tudo tão bagunçado e fora do lugar que é difícil se sentir relaxada, saber quem se é de verdade, ou até mesmo se encontrar.

Existe uma diferença importante entre uma vida exterior organizada e uma mente organizada. Quando olhamos de fora, parece que está tudo funcionando. Você vê a rotina acontecendo, os compromissos sendo cumpridos, as responsabilidades sendo resolvidas. Você acorda cedo, responde mensagens, paga contas, trabalha, produz, continua funcionando e sendo funcional. Mas tem algo sobre sua vida que só você sabe: a forma como você vive dentro de si mesma.

É possível que você ache que é besteira olhar para isso. Se só você sabe que está confuso e caótico por dentro, e por fora está tudo funcionando, então está tudo bem, certo? Não necessariamente. A realidade é que rotineiramente aprendemos a funcionar mesmo emocionalmente exaustas (alô, mulheres!). Seguimos executando de forma prática atividades ao nosso redor mesmo quando a mente está precisando de um descanso real. Bom, quero chamar sua atenção para algo que considero importante: depois de um tempo vivendo em estado acelerado e caótico, esse estado interno começa a representar quem você é. Ansiedade passa a ser chamada de traço de personalidade e você diz ”é que sou ansiosa, sabe?!”. O excesso de preocupação vira “meu jeito”. Uma hipervigilância se torna autorresponsabilidade exagerada.

Só que a mente humana tem uma tendência protetiva que, ao longo do tempo, pode se tornar prejudicial: ela transforma adaptação em hábito. Quando um estado emocional se repete durante tempo suficiente, começamos a acreditar que ele sempre esteve ali, como se nossa vida nunca tivesse sido diferente daquilo, como se fôssemos assim desde que nascemos. Normalizar isso tem feito tantas pessoas viverem sem perceber o quanto estão cansadas internamente. Não porque estejam bem, mas porque desaprenderam a reconhecer o desconforto e a necessidade de descanso.

A verdade é que nós não experimentamos a vida de forma neutra. O mundo não chega até nós puro, intacto, objetivo e idêntico. Um mesmo evento não se apresenta ou é registrado por mim e por você do mesmo jeito. Antes de qualquer coisa, ele passa pela forma como fomos emocionalmente organizados não apenas na base da vida, a infância, mas também ao longo da vida toda. Passa pelas nossas experiências, pelos medos que acumulamos, pelos ambientes que atravessamos, pelas pessoas que nos relacionamos, pelas crenças que fomos construindo sem perceber. É por isso que duas pessoas podem viver situações muito parecidas e ainda assim sentir coisas completamente diferentes diante delas.

Quando alguém vive por muito tempo em estado de tensão interna, até acontecimentos pequenos começam a ganhar um peso desproporcional. Decidir até onde vai comer fica cansativo. Resolver problemas simples como a senha do banco que travou consome energia demais. A cabeça parece viver numa espiral sem encontrar soluções para pequenos desafios que vivemos, e se forem desafios grandes, nem vem que não tem! O descanso deixa de produzir descanso real. O corpo até para, você tenta resetar, tirar um “me time”, passa uns dias para colocar os pés no mar, mas a mente continua funcionando como se ainda precisasse sobreviver ao leão invisível que está à espreita, quase para te atacar.

A resposta mais óbvia que encontro em consultório para organizar o caos interno é a que continua agravando o problema: tentamos resolver o caos interno aumentando o controle externo. A pessoa acredita que, se conseguir organizar melhor a rotina, ter uma lista de tarefas clara, metas específicas, produzir mais, encaixar o descanso e dar conta de tudo conforme a agenda, acha que o resultado final será finalmente a paz na cabeça. Só que uma bagunça emocional não se resolve através de eficiência. Algumas dores internas continuam existindo mesmo quando tudo aparentemente está funcionando do lado de fora. 

Só um pouco de cultura pop para dar uma quebrada aqui e denunciar minha idade (e a sua também se você conhecer a musica de cor como eu)… Britney Spears bem que fez uma música sobre isso, Lucky: “she is so lucky/ she is a star/ but she cries / in her lonely heart thinking/ if there is nothing missing in my life / then why do these tears come at night?” // “ela é tão sortuda/ ela é uma estrela/ mas ela chora tanto por dentro pensando/ se não tem nada faltando na minha vida/ então porque essas lágrimas vem à noite?” Pronto. Fim da cultura pop.

Por falar em cultura… O que mais temos dificuldade de mudar, inclusive porque nossa cultura não nos ensina isso coletivamente, é o de parar de resolver nossos estados emocionais com mais eficiência. Estudar mais não vai te dar calma na hora da prova do concurso. Preencher mais uma planilha não vai te ajudar a controlar a ansiedade financeira. Há um limite muito pequeno no qual atitudes de controle do mundo externo alcançam e modificam de forma concreta nossos estados interiores.

É preciso conseguir existir sem estar em estado permanente de defesa contra a vida. E quando eu digo “vida”, entenda como tudo aquilo que nos torna humanos, ou seja, emoções, relações, desejos, paixões, corpo físico e suas sensações. Lista de tarefas não é vida, ok?!

Nos últimos anos, a neurociência passou a estudar com mais profundidade como experiências emocionais moldam a forma como percebemos o mundo e reagimos a ele. Hoje já se sabe que o cérebro possui uma capacidade contínua de transformação, a neuroplasticidade. Isso significa que padrões emocionais não são estruturas fixas (ufa!). Eles podem mudar ao longo da vida. Novas formas de interpretar experiências podem ser construídas. Reações automáticas podem perder força e abrir espaço para novos jeitos de lidar com a vida. A maneira como alguém vive emocionalmente hoje não precisa ser exatamente a mesma daqui a alguns anos.

E, se você quiser, não será a mesma. Até porque ninguém precisa ser como a Gabriela da música da Gal Costa: “eu nasci assim, eu cresci assim, e sou mesmo assim, vou ser sempre assim!” Mas é aqui que se mostra a parte mais difícil de se operar essa mudança e aproveitar a plasticidade do nosso cérebro: mudança emocional raramente acontece de forma passiva.

Até porque crescer emocionalmente não é apenas adquirir informação sobre si mesmo. Isso é bem pouco, quase nada. É, na verdade, começar a perceber os próprios padrões enquanto eles acontecem. É reconhecer o quanto algumas formas de pensar, reagir e viver foram criadas para sobrevivência, mesmo que hoje estejam produzindo sofrimento. Esse processo exige participação, presença, atuação consciente. Exige disposição para olhar para dentro sem fugir imediatamente para mais uma distração, mais uma tarefa, mais uma tentativa de manter tudo sob controle, só para evitar olhar o desconforto.

Nada no processo de organização interna aponta para uma perfeição emocional, com absolutamente tudo nos seus devidos lugares. Uma mente saudável não é uma mente que nunca se sente bagunçada quando uma dificuldade se apresenta, quando se sente rejeitada porque não recebeu um convite para uma festa de um amigo, quando fica insegura com o feedback marcado pelo chefe. É uma mente onde essas e outras emoções, leves ou densas, conseguem existir sem dominar completamente a experiência de viver.

Viver é sobre atravessar momentos. Emoções são como a temperatura dos momentos, não sobre quem você é ou sobre o que você pode ou não fazer. Regular melhor a temperatura e viver uma vida interior rica não é sobre ser alguém “melhor”, “nobre”, “superior” ou “evoluído” (sim, todas essas palavras com aspas, porque elas não dizem nada sobre o que vivemos, nem sobre quem somos) por eliminar aquilo que não sabemos atravessar, e sim sobre ter uma mente que atravessa a brisa leve da alegria de verão com tanta segurança quanto atravessa o frio do inverno da tristeza de uma perda.

Quando existe mais estabilidade dentro da gente, a vida do lado de fora também muda de textura. Os problemas não desaparecem magicamente. Olha, sendo muito honesta, eles nunca desaparecem MESMO. O mundo continua difícil em muitos momentos. Mas já não parece necessário atravessar tudo em estado permanente de guerra interna.

Uma vida interior organizada é uma vida em que todas as temperaturas emocionais, do inverno ao verão interior, podem ser atravessadas sem que você perca de vista quem você é.

Gente, fazer terapia é legal, eu JURO!

Um abraço,

Sara.

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