UMA IMPOSTORA EM CADA ESQUINA
Se você é mulher, provavelmente isso já aconteceu com você. Você foi promovida, cobrou pela primeira vez um valor justo pelo seu trabalho, fechou o mês com a conta no positivo ou comprou seu primeiro carro. Mas assim que conseguiu ajustar o preço do seu serviço, começou a dar descontos que ninguém pediu ou entregar muito acima do contratado. Depois de ser promovida, passou a trabalhar longas horas para justificar a confiança que a empresa depositou em você. Toda vez que sai com seu carro, você se sente na obrigação de explicar os motivos de sua compra. Mesmo que você saiba racionalmente que merece o que conquistou, algo não deixa você se apropriar disso.
Você conhece essa sensação como síndrome da impostora. Eu prefiro seu nome original, fenômeno da impostora. Síndrome me remete a doença, e não estamos doentes nem precisamos de cura. Estamos apenas vivendo algo que precisa ser compreendido e atravessado de um jeito diferente se quisermos viver diferente.
TODAS NÓS TEMOS SÍNDROME DA IMPOSTORA?
Tudo começou em 1978, com a descoberta de duas psicólogas que perceberam uma tendência em suas sessões: mulheres relatavam que, por mais que fossem inteligentes e tivessem sucesso acadêmico, não conseguiam se sentir merecedoras dele.
Um fato pouco comentado é que a amostra usada como base pelas psicólogas para seus estudos sobre a impostora era mais de 150 mulheres de 20 a 45 anos, majoritariamente brancas, de classe social média a média-alta, com ensino superior. Quase todos os exemplos do estudo vinham da experiência acadêmica delas. Ou seja, o fenômeno recém-descoberto era vivido por uma parcela extremamente específica da população.
O estudo original era focado exclusivamente no quanto uma mulher se sentia uma farsa intelectual. Mas, quase 50 anos depois, estamos validando esse conceito em nossa vida de forma indiscriminada. Acreditamos que o fenômeno da impostora é uma experiência universal que atravessa todas as mulheres, em todas as áreas da vida, independentemente de classe social, cultura, origem, raça ou outros fatores. Parece que toda insegurança ou dúvida vira síndrome da impostora se você é mulher.
A extrapolação ou generalização de um conceito criado a partir de uma amostra altamente específica apresenta um problema que, a meu ver, agrava a situação de muitas mulheres: quando damos o nome errado para algo, corremos o risco de não encontrarmos uma solução real para a questão. Uma mulher branca, no mínimo de classe social média, com bom nível educacional, pode se sentir impostora, e isso será verdadeiro para ela. Mas será que seria correto dizer que uma mulher preta, vinda de uma classe social baixa, que luta para terminar a faculdade e ser a primeira da família com um diploma universitário, também deveria se encaixar no conceito da impostora ou tem algo além disso acontecendo?
ALÉM DA SÍNDROME DA IMPOSTORA
O achado daquelas psicólogas nos anos 70 é real. Não havia ficção no que aquelas mulheres sentiam ou estavam lidando com. Mas há um problema criado a partir da palavra usada para definir a experiência dessas mulheres, a “impostora”.
Impostora é aquela que finge algo que não é, de forma totalmente consciente, com a intenção de enganar para ter alguma vantagem. Por isso mesmo, ela é a única responsável por corrigir seu comportamento para tornar-se íntegra novamente. O peso da correção desconsidera a influência de fatores diversos, culpabiliza e coloca a mulher como a única responsável por isso.
O que importa compreender é que o recorte de classe social, nível de escolaridade e raça importa para o conceito. O fenômeno da impostora existe, mas sua dificuldade de se apropriar do seu sucesso pode não vir apenas dele.
Perdi as contas de quantas mulheres passaram em sessão comigo se dizendo impostoras, mas avaliando melhor sua história e seu contexto socioeconômico, verifiquei que, na maioria dos casos, não existia impostora. O que elas chamavam de síndrome da impostora tinha outros nomes…
A dificuldade de cobrar adequadamente por seus serviços por medo de ficarem sem clientes pode vir como uma resposta a um trauma financeiro. Vivências com dinheiro em qualquer momento da vida que sejam intensas, profundas, marcantes, podem fazer com que você desenvolva sensação de insegurança crônica quando passa por situações envolvendo dinheiro, mesmo que nada esteja acontecendo na realidade. O medo de voltar a viver situações financeiras difíceis pode fazer com que você tome atitudes danosas, inclusive contra seu próprio desejo.
Quando mulheres pretas, pardas ou de qualquer outra origem fazem um bom trabalho, mas tendem a minimizar seus feitos e aceitar críticas feitas a elas sem questionar, isso pode vir de trauma racial. O resultado disso é que colegas brancos tendem a ter salários mais altos ou serem promovidos com mais frequência que elas. Para uma pessoa que sofreu situações de violência direta ou indireta, ou microagressões como comentários sutis, piadas de cunho racista ou negação de seus direitos, lidar com seus sucessos pode ser um desafio maior do que se imagina. O corpo aprende a ler as pistas do ambiente com desconfiança, a viver em estado de alerta e a medir palavras diante do próprio sucesso.
Você é a primeira da família a trabalhar de carteira assinada e na hora de entender seu contrato de trabalho, avaliar salário, tirar sua dúvidas, prefere dizer que está tudo certo e conseguir as respostas sozinha para não parecer que não pertence àquele lugar. Quando você é a primeira pessoa da família a ter acesso a direitos básicos como diploma universitário, carteira assinada, plano de saúde ou casa própria, talvez você se sinta insegura ou deslocada por estar entrando em um terreno desconhecido, com o qual você ainda não sabe como lidar com. Essas conquistas são consideradas “normais” ou até “nada além da sua obrigação” para classes sociais de privilégio, mas para você é uma conquista geracional e traz novos códigos de conduta que você não foi preparada para.
O QUE FAZER, ENTÃO?
Se você se sente impostora por medo de cobrar adequadamente, se pergunte como era a vida financeira da sua família na infância. Ou quem sabe você tenha passado por alguma situação intensa envolvendo dinheiro na vida adulta, como uma demissão inesperada, um chefe abusivo, e depois disso parece que o medo de perder dinheiro se instalou na sua vida.
Se pergunte se você foi preterida em promoção no trabalho ou tem o salário mais baixo da equipe por não ter uma performance impecável ou um currículo exemplar, ou porque você não pensa, age, se veste ou se comporta como um homem branco?
Se você comprou seu imóvel num bairro diferente daquele que você cresceu, é a primeira a ter um diploma universitário ou a primeira mulher da família a escolher ativamente se deseja ou não ser mãe, se pergunte se você é mesmo impostora ou só se sente insegura porque ainda precisa aprender como lidar com aquilo que é novo?
Cada uma dessas situações não pode ser tratada com as mesmas ferramentas com que se trata o fenômeno da impostora clássico. O fenômeno da impostora, apesar de existir, não é universal. É necessário que coloquemos os nomes corretos nas experiências que atravessamos ao longo da vida para que encontremos caminhos de soluções adequados ao que vivemos.
