mulher com pensamentos intrusivos sobre dinheiro

A função oculta dos pensamentos intrusivos

O QUE É ISSO QUE INVADE SUA MENTE?

Um dia, você percebe que, independente de você pagar os boletos em dia ou não, continua sentindo que alguma coisa de ruim vai acontecer. Você não sabe por que essas imagens carregadas de angústia, de que vai faltar comida ou de que você vai perder tudo, aparecem na sua mente sem aviso e sem vontade de ir embora. Num primeiro momento, você consegue argumentar internamente que elas não deveriam estar ali, mas com o passar do tempo, nada mais parece fazer efeito. O que está acontecendo?! Talvez você precise descobrir o lado oculto dos pensamentos intrusivos.

Se você não tiver uma condição de saúde mental que interfira no funcionamento do seu cérebro, como TOC ou transtornos de ansiedade graves, cujo tratamento é específico, é possível que você reconheça esses padrões como um comportamento comum a quase todo ser humano: a invasão de informações que aparecem sem aviso e com a função de perturbar a normalidade do seu dia.

Pensamentos intrusivos são pensamentos, emoções, imagens, ideias ou qualquer coisa indesejada que surja na sua mente de forma repentina, sem que você tenha convidado esse conteúdo para passear na sua mente. Na maioria das vezes, ele tem uma carga emocional associada, e vai contra seus valores e a forma como você acredita que deva viver. Por ter conteúdos agressivos, de tristeza e até de catástrofes, é comum que você sinta culpa, medo ou vergonha da presença deles. Afinal, se os outros soubessem que isso passa na sua mente, o que pensariam sobre você, certo?

Por que eu chamo isso de pop-up mental?

Nos atendimentos que conduzo, eu prefiro chamar esses pensamentos intrusivos de “pop-ups mentais”. Isso porque percebo que eles são como janelas de pop-up de sites que surgem enquanto você está lavando louças, dando banho no cachorro, olhando minha conta bancária. Você olha aquela janela aleatória que abriu, aquela música brega tocando, fecha rápido e segue navegando pela vida. Mas tem horas que a música continua mesmo depois do site fechado.

Sou psicóloga junguiana, por isso o pensamento de Carl Jung é a base que utilizo em meus atendimentos e nos textos que escrevo. E para entender os “pop-ups mentais”, vamos entender primeiro, de forma básica, como a mente humana funciona.


CONSCIENTE E INCONSCIENTE – O MAPA POR TRÁS DO POP-UP MENTAL

Dentro de nós, existe um território que acumula tudo o que sabemos sobre nós, aquilo que é conhecido porque foi conquistado: a consciência. Por causa dela, você sabe andar de bicicleta, consegue ler esse texto, sabe que o fruto do trabalho é o salário e que todo mês precisa pagar os boletos. Tudo isso é conhecimento conquistado, atitude desenvolvida, portanto, consciente.

Existe outro território chamado inconsciente, que guarda tudo o que não sabemos. E ele é infinitamente maior que a consciência. Para te dar uma ideia, é como se a consciência fosse uma cidade e o inconsciente é todo o resto. Ou seja, as matas virgens, as florestas, montanhas, o mar, o céu, o centro da terra, as galáxias e todo o resto que existe e não foi conhecido, civilizado ou conquistado.

É do inconsciente que surgem esses pensamentos intrusivos. O que você não sabe é por que o inconsciente está tentando fazer você ficar com medo de você não conseguir pagar seus boletos (mesmo com a conta no azul) enquanto você está lavando a louça.


PORQUE O INCONSCIENTE INSISTE?

Segundo o Jung, o inconsciente tem uma dinâmica de relacionamento com a consciência bem peculiar. Toda vez que a consciência toma uma atitude e vai em uma direção, se o inconsciente não concordar com aquela decisão, porque aquilo pode não te fazer totalmente bem, algo vai acontecer. Ele vai dar um jeito de reorientar você para um caminho, para uma atitude que seja mais favorável.

Essa reorientação acontece o tempo todo dentro de você e se apresenta com características que diferenciam pensamentos intrusivos de todos os outros: intensidade e conteúdo.


COMO UMA INTUIÇÃO VIRA ALARME?

Essa é uma cena comum. Você comprou uma roupa sem verificar se caberia no orçamento, e quando chegou no caixa sentiu uma intuição de que não deveria comprar aquilo, mas ignorou a mensagem e agiu como se tudo fosse ficar bem no futuro. Na semana seguinte, outra compra, a mesma mensagem sendo ignorada. Por vários dias no mês, a cena se repete: decisão -> intuição de autocuidado -> ignorar -> fazer do mesmo jeito. Com o passar do tempo, e a insistente atitude de ignorar a mensagem, ela vai ganhando mais tensão, aumentando a carga emocional, até ser impossível de ignora-la.

Esses pop-ups mentais não começam com carga total. Quando investigo em sessão o que está acontecendo, é comum chegarmos à informação que tudo começou dias, semanas antes, com uma mensagem muito mais sutil, algo como uma intuição, que foi ignorada.

Sabe quando estamos assistindo um filme de suspense/terror que, no começo, o protagonista tem um pensamento de “tem alguma coisa esquisita aqui, mas eu devo estar ficando louco… vamos continuar”. A situação vai escalando até ele estar correndo nas matas para salvar sua própria vida porque ali tinha um perigo enorme? No começo, o que se apresentou como intuição e alertas de segurança escalou emocionalmente até passar a ser pensamento intrusivo e alertas de sobrevivência.


O QUE A MENSAGEM REALMENTE DIZ?

Voltemos ao exemplo. Nas primeiras compras, as mensagens eram mais calorosas e brandas, dizendo para não comprar, esperar um momento mais apropriado, ter mais cuidado. Com o passar dos dias, as mensagens ficaram mais curtas, mais duras e diretas, passando a dizer que poderia faltar dinheiro para pagar as contas, para sustentar a família. Durante todo o mês, você foi ignorando as mensagens sutis de cuidar ativamente de sua vida financeira. Percebe que só de pensar em comprar algo, recebe mensagens internas mais afiadas e alarmantes, afirmando que vai perder tudo e ficar sem nada se comprar qualquer coisa, mesmo que necessária.

É como tentar dar uma instrução para uma pessoa quando ela está perto e quando ela está longe, física ou emocionalmente. Quando perto, você consegue ser claro, pode usar uma linguagem mais sutil, frases mais longas. Mas quando ela se afasta, essa clareza fica comprometida. A distância, quanto maior, requer que a mesma mensagem seja encurtada, usa-se palavras mais diretas, mais duras. Seu significado pode ficar distorcido pela necessidade de encurtar uma informação. O foco é passar a mensagem, não importa como.

O objetivo do “pop up mental”, da intuição ao pensamento intrusivo, costuma ser o mesmo. A carga emocional é o que distorce a mensagem e impede que você ouça a si mesma, para corrigir sua rota e não bater na parede. A cada vez que você ignora as correções, uma camada de tensão distorce a mensagem original, impedindo você de enxergar, com clareza, o que realmente está sendo orientado.


COMO TRADUZIR ESSA MENSAGEM?

Pensamentos intrusivos não existem à toa. Eles têm uma função oculta de ajudar você a revisitar suas atitudes, para que você tenha uma vida mais ajustada às suas necessidades. Às vezes, é necessário ter um tradutor experiente para ajudar a compreender a mensagem. Alguém com distanciamento emocional em relação à questão, que tenha uma neutralidade diante do pensamento intrusivo. Para compreender sua mensagem oculta, é fundamental não ver a mensagem como boa ou má, e sim com curiosidade. Depois disso, recalcular a rota com uma mudança de atitude prática. O importante é que você evite cair em culpas e julgamentos sobre pensamentos intrusivos, ou até mesmo achar que eles representam quem você é, ao invés de vê-los como são: alertas interiores.

Em sessão, o que é mais comum de acontecer é irmos, aos poucos, ajustando o foco emocional para entendermos a mensagem que vem sendo dita pelo pensamento intrusivo. Não existe um modelo “se eu pensei isso deve ser porque eu deveria fazer aquilo”, mas vou te dar um exemplo para que possamos deixar claro um caminho possível de acontecer.

Quando alguém segue o caminho de: desejar algo -> receber do correio interno uma intuição de autocuidado -> ignorar os sinais de perigo -> fazer mesmo assim, ela costuma chegar em terapia sem entender por que esses pensamentos existem. Começamos um trabalho de tirar as camadas de intensidade para clarear a mensagem. A atitude do terapeuta de olhar os pop-ups mentais com neutralidade ajuda o outro a criar menos barreiras ao que está acontecendo dentro de si. Aos poucos, a cliente compreende a mensagem, sem autojulgamento, e realiza mudanças necessárias no dia-a-dia.


DA IMAGEM ALARMANTE À INTUIÇÃO DIÁRIA

Se você é invadida por medo de não conseguir pagar os boletos enquanto faz algo corriqueiro, pode começar a se perguntar, com curiosidade, sobre o que esse pensamento está querendo alertá-la. Os aspectos concretos importam e têm seu momento de cuidado, exemplo: os boletos não param de chegar, a vida está cara, é preciso economizar. Mas, ao evitar se fixar só neles e focar nas atitudes próprias que precisam mudar, é possível chegar a outra conclusão: você anda comprando objetos sem praticar autocuidado financeiro. Ou que está confiando demais que no futuro tudo se resolveria, sem se atentar que o futuro também depende das suas decisões no presente.

Compreender a mensagem e mudar a atitude, de confiança excessiva no futuro para um cuidado ativo no presente como no exemplo, pode ser a mudança necessária para que esses pop-ups mentais saiam de imagens alarmantes para intuições diárias.

Abraços,

Sara

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