PORQUE VOCÊ NÃO SABE QUANDO BUSCAR AJUDA
Se você sente que sua saúde física precisa de atenção, você marca uma consulta com o médico. Faz exames, investiga a fundo os sintomas, tem um diagnóstico que dá uma direção clara de medicamentos e mudanças de atitudes necessárias para restaurar a saúde física. Isso acontece porque profissões nas quais você tem clareza de seu objetivo, como funcionam na prática e como reconhecer que ela está obtendo resultado criam menos barreiras para busca-las quando você precisa de ajuda. Ou seja, se você sabe o que um médico faz, você saberá exatamente quando procura-lo para ser ajudado e como reconhecer que a ajuda dada está sendo efetiva. Você chega com um problema, sai com uma solução. Com terapia, a experiência costuma ser diferente, e é comum ouvir de alguém que terapia não fez efeito antes mesmo de dar tempo ao processo.
Quando falamos da profissão de psicólogo (ou de profissionais de saúde mental no geral), já se sabe que seu objetivo é ajudar você a restaurar o equilíbrio da sua saúde mental. É um fato curioso que 52% dos brasileiros afirmam que a saúde mental é a principal causa de mal estar da população hoje. E, apesar de 16% da população fazer uso de medicação contínua para saúde mental, apenas 5,1% está em tratamento terapêutico e cerca de 19% até buscou ajuda terapêutica no último ano, mas a maioria desistiu da terapia após 5 sessões. Ou seja, sabemos da importância da saúde mental, sabemos quem procurar se algo não parece bem, mas acontece muitas vezes de é comum começar terapia e desistir antes de perceber qualquer resultado, apesar de buscarmos medicação como suporte. Porquê?
Algo me ocorreu enquanto vi esses números e repassei mentalmente os atendimentos que fiz com pessoas que ficaram por pouquíssimo tempo: a ideia que alguém tem sobre o que é, para quem é, como acontece o processo e sua expectativa de resultado, costumam ser diferentes e distantes da realidade de um processo terapêutico de verdade. Há um desconhecimento sobre como trabalha um psicólogo, como é fazer terapia e como reconhecer que a terapia está sendo uma ajuda efetiva para a questão trazida. Na minha prática clínica, percebi que quanto maior a distância entre a expectativa de alguém e a realidade, mais difícil se torna permanecer em tratamento.
SAÚDE MENTAL DESMISTIFICADA
Sei que saúde mental é um termo mais conhecido hoje do que quando me formei, em 2002. Na época, os jovens psicólogos recém-formados já enfrentavam o estigma de serem “doutores de doidos” porque achava-se que só fazia terapia quem era louco. Com informação, educação e popularização da profissão, o estigma foi transformado. Se antes só fazia terapia quem era louco, hoje uma pessoa vai considerar fazer terapia apenas quando está doente e tem diagnóstico confirmado. Ansiedade, depressão, dentre outros diagnósticos clínicos são tidos como justificativa plausível para se iniciar um processo terapêutico. Isso é verdadeiro, mas é incompleto.
Saúde mental não acontece somente na ausência de doença mental. Há indicadores mais amplos sobre saúde mental que englobam: gerenciamento de conflitos, qualidade das relações, capacidade de lidar com desafios, equilíbrio das emoções, flexibilidade diante das mudanças, sensação de segurança e bem-estar, dentre outros parâmetros. Você pode não ter nenhum diagnóstico clínico e ainda assim se sentir emocionalmente esgotada ou ter dificuldade de estabelecer relações equilibradas, indicando que há questões que precisam ser trabalhadas em terapia para que você encontre equilíbrio.
O oposto de saúde mental não é doença mental, e sim dificuldade continuar operando de forma funcional diante dos desafios da vida sem se sentir emocionalmente devastada. É questão de saúde mental quando você percebe que tem os mesmos padrões dolorosos de relacionamento a dois, sabe que precisa mudar para conseguir estar numa relação equilibrada, mas não consegue fazer isso. Também é questão de saúde mental quando você gasta compulsivamente com procedimentos estéticos porque se sente insegura com sua aparência e tem dificuldade de lidar com isso. Ou ainda quando você evita abrir o extrato do cartão por sentir vergonha do quanto gastou, ou sentir uma ansiedade ao receber salário, mesmo quando você está com todas as contas pagas. Isso só para dar alguns exemplos.
TERAPIA NÃO É DORIL
Bom, você decidiu que é hora de começar terapia. É aqui que expectativa e realidade começam a criar uma tensão que pode prejudicar ainda mais sua busca por ajuda. O que se espera, dado uma experiência prévia com outros profissionais de saúde física, é encontrar o mesmo padrão de consulta: um problema, uma solução. Mas, diferente da medicina, ainda não existe uma máquina que possa detectar através de um exame o que está acontecendo que faz você sentir ansiedade, explodir emocionalmente diante de situações cotidianas, sentir medo irracional do futuro, ter uma autoestima frágil, etc. A imagem do que te acontece é menos parecida com um raio-x, e mais com um quebra-cabeças de 10 mil peças que vai ficando claro à medida que as peças vão se encaixando enquanto você fala sobre o que está vivendo.
Usando um pouco de jargão técnico, terapia não é o nome de uma consulta. É o nome de um processo estruturado e continuado de intervenção psicológica, conduzido por um profissional habilitado, que usa uma teoria e um método específico para investigar, compreender e ajudar a transformar o funcionamento emocional, dinâmicas relacionais e o comportamento de uma pessoa.
Ou seja… Terapia não é uma conversa livre, porque existe um profissional ouvindo ativamente tanto o que você diz como o que você cala. Esse profissional tem uma base teórica a qual ele usa como mapa para compreender o que está acontecendo com você e, assim, conseguir fazer uma intervenção para fazer você ampliar seu olhar, ver algo que estava fora do seu entendimento e que isso faz diferença na forma como você vive algo. Não é evento único e sim um processo, porque saúde mental requer uma mudança estrutural na forma como você responde às situações vividas. O foco do processo é o padrão que se revela em cada vez que o tema é vivido, e não o sintoma esporádico. Sim, é preciso neutralidade, sigilo e ética profissional, ao invés de dar conselhos de como você deve resolver determinada situação.
CONFIANÇA, TEMPO E SEGURANÇA SÃO O TRATAMENTO
Se você nunca fez terapia, deixa eu te explicar como é um processo terapêutico.
Todo psicólogo tem uma abordagem que ele usa para interpretar o que acontece com você e ferramentas para te ajudar a mudar. A forma como um psicanalista vai abordar uma questão é diferente de como um terapeuta cognitivo comportamental vai abordar a mesma questão. Nenhum está certo ou errado, são apenas jeitos diferentes porque cada abordagem tem princípios e uma interpretação sobre o ser humano.
A escolha de um psicólogo de abordagem “a” ou “b” depende do quanto aquela abordagem combina com você e do quanto aquele terapeuta também se desenvolveu profissionalmente. Mas é possível que nada disso faça um processo acontecer se você e o terapeuta não formarem um vínculo.
É no vínculo com o profissional que surge a confiança para que você fale com o máximo de honestidade possível sobre as dificuldades que você está enfrentando. E quanto mais abertamente você fala sobre um assunto, mais claro fica o padrão que você vive, melhor é de enxergar o que precisa ser modificado, incluído ou retirado da forma como você vive para que a estrutura como um todo se modifique.
À medida que a confiança se estabelece, você também se sente seguro para estar diante de alguém como você é, sem julgamentos morais. Essa segurança também é parte fundamental do tratamento. Quando você se sente seguro diante de alguém, você tem menos medo que aquela pessoa te julgue quando você compartilhar um pensamento que você considera mau, feio ou errado. E, na maior parte das vezes, é nessa partilha segura, de que tudo pode existir, que se encontram os padrões mais enraizados.
Mas tudo isso só funciona com o tempo. Dificilmente você conhece alguém e já sai confiando toda a sua vida para a pessoa, segura que ela não vai te dar as costas se você falar qualquer coisa, inclusive que não gosta dela. O tempo é fator fundamental para que a confiança e a segurança estejam presentes, estabelecendo o vínculo.
Na prática, o que vai acontecendo é: você vai estar diante de uma pessoa, profissionalmente treinada para escutar você e identificar padrões que estejam contribuindo negativamente para sua saúde mental (mesmo que todos digam que são padrões aceitáveis), por um tempo específico, investigando esses padrões até conseguir encontrar novas formas de lidar com aquilo que te trouxe para a terapia. Você chega em atendimento, se aquela situação tiver ocorrido, se conversa sobre ela especificamente. É uma investigação que tenta-se, mas não reduzido a isso, apreender o significado da experiência, descrever ações e emoções presentes, verbalizar partes que são difíceis de assumir, atravessar conteúdos emocionais mais densos, se você tentou fazer diferente e como foi, etc. E se nada tiver ocorrido sobre o tema específico, conversa-se sobre o assunto relacionado à como ele impacta outras áreas da vida, como ele se manifesta de formas sutis, como outras pessoas também lidam com aquilo que te incomoda tanto.
Poxa, ficar falando sempre do mesmo assunto não cansa? Não sei… para alguns, sim e, por isso mesmo, terapia é um processo que permite introduzir outras questões da vida que, não necessariamente tem a ver com a dor original, mas podem ser impactados ou impactam o problema que trouxe à pessoa para a sessão. Ou nem tem uma relação direta, mas estão incomodando no momento e merecem ser vistas.
UM MÊS DE SESSÃO AJUDA?
Quando falamos de aspectos que impactam a saúde mental, não estamos considerando só uma fala que precisa mudar, uma rotina que precisa ser alterada ou uma relação que precisa ser cortada. Mesmo que essas sejam atitudes práticas que precisemos fazer para lidar com as emoções e as relações de uma forma mais equilibrada, elas são complexas de serem executadas, porque mexem na estrutura humana.
Existe uma diferença, de tempo e complexidade, quando você muda um quadro de lugar numa sala e quando você resolve mudar a estrutura da casa inteira para se ajustar melhor às suas necessidades. E terapia é como obra em uma casa: quanto mais você precisa mexer na estrutura para que essa casa fique mais adequada às suas necessidades, mais complexo e demorado é para finalizar. Quando alguém me pergunta em quanto tempo ela pode ter resultado, eu respondo perguntando até onde ela deseja ir, porque cuidar da higiene mental para manter a mente saudável é uma tarefa para uma vida toda, da mesma forma que é cuidar da própria casa.
E O RESULTADO, TEM?
Terapia não entra no processo “um problema, uma solução”, mas também não é uma experiência sem rumo. O tempo necessário para se conseguir uma mudança depende de como uma pessoa chega com sua história, sua rede de apoio e relações, recursos emocionais que já se tem e se precisa desenvolver e até de diferentes objetivos. Ainda assim, ao longo do processo, é importante conseguir perceber movimento: mais clareza sobre o que acontece com você, maior capacidade de nomear emoções, pequenas mudanças nas escolhas, relações ou reações, e uma compreensão mais consistente dos padrões que causam sofrimento.
Se, depois de algum tempo, você sente que nada está fazendo sentido, que não há vínculo com o profissional ou que não entende para onde o processo está indo, isso merece ser conversado abertamente em sessão. Avaliar o caminho também faz parte da terapia.
Resultado em terapia não precisa significar uma vida sem conflitos ou uma “cura” definitiva. Pode significar conseguir atravessar a vida com mais recursos, menos repetição de dores antigas, mais liberdade para escolher e mais segurança para ser quem você é.
Eu vou retomar a comparação com uma casa, para te explicar com uma imagem o que é resultado em terapia. Se você mora sozinho ou mora com a família, vai reconhecer que uma casa parece nunca estar pronta e acabada. Tem sempre algo a ser mexido, um objeto a ser incorporado, um móvel a ser doado. A casa é quase um organismo vivo, e assim ela precisa ser, porque toda casa precisa se adaptar às necessidades de seus moradores. Por mais que você contrate um arquiteto para fazer um projeto incrível e ter uma casa do jeito que você deseja, daqui a um tempo você provavelmente vai olhar para ela e pensar que está na hora de uma pequena reforma.
Da mesma forma como uma casa assim é sua saúde mental. Ela está constantemente em transformação. Às vezes, mais rápida, às vezes mais lenta. Mas há um sinal de que ela está equilibrada e saudável quando permite que você atravesse mudanças, situações e relações e continue se sentindo em segurança em sua própria vida. Sua saúde mental precisa ter uma flexibilidade que suporte mudanças, se adapte à novas fases da vida, esteja em movimento. Ela precisa ser viva. E, por isso mesmo, não se fala em resultado da terapia (da mesma forma como não se diz que uma obra acabou e você nunca mais precisará mexer na casa).
Um abraço,
Sara.
