Todo mês, você costuma receber um aviso informando o melhor dia para fazer comprar. É quando você sabe que a fatura fechou, e agora o valor que precisa pagar sobre seus gastos daquele mês no cartão de crédito está definido. Para algumas pessoas, é apenas uma mensagem comum. Mas para outras, o cartão “virar” é motivo de um aumento da sensação de insegurança e instabilidade. A mensagem de “sua fatura fechou” faz você sentir o coração acelerado, uma certa tensão nos ombros, e você se pergunta “meu deus, quanto será que eu gastei?” Você ainda não olha o total para tentar aliviar um pouco o que sente. Dá uma disfarçada, vai resolver outras coisas na vida, evita pensar nisso até o dia do pagamento da fatura. Até lá, quando esse assunto surge na mente, você faz uma conta mental sobre o quanto acha que gastou, se vai dar para pagar tudo ou apenas uma parte. Na medida que o dia do vencimento se aproxima, a insegurança vai crescendo e você vai ficando sem sono, tensa. No vencimento, você paga o que pode, seja tudo ou apenas uma parte. O pagamento alivia a pressão interna, a sensação de que tudo está por um fio. Acabou a preocupação naquele momento, mas o ciclo vai começar novamente, com você o restante do mês gastando no cartão de crédito sem se importar com a fatura, até o dia que chega a mensagem “sua fatura fechou”.
Você pode achar que esse alívio é permanente e real. Se você vive esse ciclo um mês ou outro, talvez essa percepção realmente te ajude a não pesar demais a vida e te faça buscar outras formas de lidar com o que está acontecendo. Mas você segue vivendo esse ciclo todo mês, por meses ou anos seguidos, normalizando que evitar olhar a fatura te traz conforto e o pagamento da fatura te traz alívio ou até libertação. Algo se forma por dentro sem que você perceba. Você pagou a fatura e continua tensa, como se algo estivesse prestes a acontecer. Ignorar as mensagens de fechamento de fatura começam a não ter mais o mesmo efeito calmante, pagar a fatura não é mais um alívio, já que agora seu corpo já sabe que, mais cedo ou mais tarde, o ciclo vai acontecer de novo. E ele precisa se preparar para lidar com isso.
É comum acharmos que apenas grandes eventos nos marcam e mudam nossa forma de lidar com a realidade. Mas e quando você percebe que algo mudou, você não é mais a mesma, só não consegue definir exatamente quando aconteceu? Imagine que você se sente profissionalmente bem, mas perde o emprego de forma repentina e começa a ficar ansiosa quando busca um novo. Esse evento mudou você, porque você entende que existe você antes e depois dele. O que talvez ainda não seja claro para você é que nossas transformações mais profundas na verdade, podem vir de situações do cotidiano, o que torna difícil de nomea-las como transformadoras porque não existe um ponto de mutação. A mudança acontece por causa da constância dos acontecimentos, e na consistência da resposta do corpo à esses eventos.
É por isso que viver uma vez ou outra (com um intervalo de meses ou anos entre eventos), o ciclo de evitar olhar a fatura até o dia do pagamento não altera sua vida em muita coisa, mas vive-lo todo mês faz seu corpo reconhecer sinais de estresse, registra-los como potenciais perigos. E cada vez que o evento se repete, mais uma camada de estresse vai se acumulando. Quando você menos espera, mesmo com uma fatura baixa, pagando o valor total ou até mesmo cancelando todos os seus cartões, seu corpo vai reagir da mesma forma, como um script de roteiro que você já sabe como é o final.
Depois de meses lidando da mesma forma com esse evento, a tensão do corpo não pode ser facilmente ignorada. A solução lógica mais comum é a de controlar o dinheiro para eliminar as sensações ruins do corpo: cortar gastos, preencher planilha, renegociar dívidas. Mas a surpresa para muitas é que, no mês seguinte, se você fez tudo financeiramente certo, porque essa angustia continua existindo? Se tudo se resumisse apenas a decisões financeiras com base na matemática, a lógica traria soluções que resolvem o todo, e não apenas o dinheiro. Mas o corpo que aprendeu que a fatura do cartão de crédito é um perigo inescapável, que lê sinais de perigo em situações corriqueiras, não sai do estado de emergência apenas com planilha preenchida. Porque? Porque o evento passou, mas o corpo construiu respostas ao ambiente que seguem a lógica do sistema nervoso, não da matemática.
Há um estranhamento em atravessar essa experiência. A reação não combina com o que você está vendo. Você está com as contas em dia finalmente, planilha preenchida. O evento passou, mas o corpo continua reagindo como se tudo estivesse igual. Você começa a se culpar, talvez não tenha feito tudo o que podia. Não faz sentido essa reação! Mas para o corpo faz… Durante meses ou anos, ele construiu experiência com significados, inseguranças, medos, vergonha, que aos poucos moldou você para reagir em um determinado padrão. Ele não está reagindo à fatura baixa desse mês, ele está reagindo a todas as faturas que você viveu em medo e insegurança. Principalmente, ele está reagindo a quem você acreditou ser, durante todos esses meses, quando olhava para o fechamento da fatura e seu pagamento. É como se por tantos meses você se viu pequena e impotente diante de algo corriqueiro que o corpo passou a construir uma experiência ao redor desse evento que moldou você. Mesmo sendo alguém que conseguiu regular o cartão de crédito, ele continua te dizendo que algo ruim vai acontecer a qualquer momento e você precisa estar preparada. Não para o evento, mas preparada para, talvez, voltar a ser aquela pessoa que vai estourar o cartão de novo. Você desaprendeu a confiar em si.
O dinheiro, por si só, não é causador principal da angústia. Ele não agiu contra você ou te atacou. É seu corpo, e sua consciência de si, que viveu, registrou, aprendeu e repetiu o mesmo estado de alerta, a mesma insegurança, as mesmas reações emocionais, e acreditou na mesma falsa sensação de resolução apenas pagando a conta. Cuidar da vida financeira é uma tarefa da vida adulta da qual não podemos fugir, mas é a forma como você lida com essa tarefa quem vai direcionar qual padrão seu corpo vai construir para viver essa experiência.
Agora, reflete comigo… quando chega a mensagem que sua fatura fechou, qual o primeiro pensamento passa pela sua mente? É algo positivo, de você reconhecer que cuidou de si, se respeitou, se manteve num espaço de segurança, ou vai mais no negativo, de achar que aquela fatura é prova que você errou, que não se cuidou? A forma como você atravessa os eventos da sua vida que envolvem dinheiro, sejam com uma sensação de segurança ou sentindo culpa pelas suas decisões, define a qualidade dessa relação.
Se tiver chegado o momento de você conversar sobre isso com alguém, me manda mensagem.
