Quando um perfume é mais que um perfume

Eu sou muito chata com cheiros. Desde adolescente, eu tenho rinite alérgica crônica e cheiros costumam ser gatilho para uma crise de espirros interminável. Por isso, em 2015, eu aboli perfumes da minha vida.

Ou assim eu pensava.

2015 foi o ano que tudo mudou. Meu marido e eu fomos morar juntos. Eu fiz minha segunda transição de carreira, agora do marketing para a psicologia, do corporativo para a vida de autônoma. Já contei essa história tantas vezes que acho que consigo dize-la de trás para frente. Mas nem só de grandes acontecimentos se vive, os pequenos também falam muito sobre nós.

Naquele mesmo ano, eu comecei cursos de cosméticos naturais e aromaterapia, já quis abrir minha própria empresa de cosméticos naturais. Fiz um curso de empreendedorismo e, dele, nasceu a Semente da Vida (existe uma ‘jovem mística’ que habita em mim e respira por aparelhos hoje em dia). Meu sonho da época era sair por completo do uso de produtos altamente industrializados. Consegui vender algumas unidades de cremes, perfumes personalizados, desodorantes e até sabonetes. Até hoje, eu ainda faço óleos de massagem, mas não vendo, não troco, não dou. É apenas para uso pessoal e intransferível.

Por causa disso, parei com perfumes. E desodorantes também, mas depois e voltei a usar. Desculpa, jovem mística que me habita, foi demais para mim, não deu. E, olha, de verdade eu não senti falta. Do perfume, não do desodorante! Estive todos esses anos sem perfume, até mês passado, quando uma vontade irresistível de usar perfume de novo entrou na minha cabeça e só saiu quando comprei.

Alô compra por impulso! Mil detox de compras não eliminarão esse processo da minha mente (nem da sua!), nem que a vaca tussa, e estou em paz com isso. Aprendi a usar como ferramenta de autoconhecimento. Pois bem, fui lá e comprei. Um barato, que é pro impulso ficar feliz e eu não me estropiar toda pagando caro num treco que nem sei se vou gostar. É perfume, né?! É aquele momento que alguém vai dizer “nossa, esse cheiro me lembra fulana!” Eu tinha um “amigo” (sim, com aspas para não entregar demais a vida… meu marido lê isso aqui!) uns 20 anos atrás que adorava se encher de perfume e depois ouvir as menininhas que ele pegava dizerem que o cheiro dele tinha ficado na roupa delas. Vergonha? Passamos.

Comprei. Cara de pau que sou, comprei por impulso mesmo. Está autorizado você me julgar. Escrevi tudo isso para te dizer que, quando fui usar, eu entendi porque parei e entendi porque voltei. Não parei pela rinite, não era um ato de resistência contra corporações cheias de produtos químicos, não era por convicção de que só presta se for natural, nem porque todo mundo tinha um cheiro igual ao meu.

Era por entender a quem eu estava agradando quando usava perfume, e quem eu era.

Cheiros são cruciais na natureza. Talvez você não saiba, mas o olfato é um dos 5 sentidos que está completamente maduro ao nascermos. Não é o paladar, não é a visão, é o olfato. Porque?! Porque a natureza é uma mulher caprichosa e ardilosa, e decidiu que a primeira forma de reconhecermos nossa mãe é pelo cheiro: o colostro tem um cheiro semelhante ao líquido amniótico. Animais podem ser visualmente semelhantes entre si, mas o cheiro não é. Cheiro é identidade na natureza. É o olfato quem nos informa que podemos relaxar porque aquela mulher é nossa mãe.

Mas voltando ao caso do perfume por impulso. Senti aquele desejo irresistível de comprar um perfume. Cheiros são formas de identidade. Durante os últimos 10 anos, minha identidade estava se formando. Ou melhor, se encontrando, sendo reconhecida por mim. Sentir meu cheiro estava significando, sutilmente, diferenciar quem eu era. Eu usava perfume para agradar o outro e me perdia de mim. Eu parei de usar perfume para me encontrar mesmo que significasse a rejeição do outro. E percebi que quando pus perfume no meu corpo, uma onda de prazer passou por ele. Eu agrado a mim mesma usando um cheiro que me traz alegria. Não me perco de mim porque estou cheirando diferente.

Eu sei quem sou, num nível mais profundo e difícil de colocar em palavras, e agora estava pronta para assumir isso. Um perfume não muda nada, só amplia minha autoestima e meu autovalor.

Se você leu até aqui e pensou “essa mulher perde muito tempo de sua própria vida pensando nessas besteiras… um perfume é só um perfume, sua doida!”, eu entendo você. É verdade, um perfume realmente é só um perfume para 99% das pessoas. E era pra mim também até mês passado. Hoje, um perfume me trouxe à consciência um processo que demorou 11 anos para amadurecer e se completar, e eu não estava nem procurando isso ativamente. Não fiquei pensando por 11 anos sobre o perfume que não usava mais. Nem sobre o que isso significava para minha identidade. Não dormia me perguntando “mas porque eu não uso perfume, gente?!” ou acordava decidida a encontrar essa resposta.

Só aconteceu. Eu segui o impulso, não gastei mais do que podia e descobri um pedaço de mim que desconhecia. Às vezes, a gente acha que comprou só um simples objeto, para só depois perceber que o corpo já estava ciente de uma mudança interna que ainda não tinha sido colocada em palavras. Nossa consciência não sabe de tudo o que acontece dentro de nós; muitas vezes a consciência leva anos para alcançar uma transformação que já está sendo vivida no corpo.

Se eu disser para você que é possível eliminar completamente compras por impulso, eu vou estar não apenas mentindo, mas te fazendo uma falsa promessa. O processo psicológico das compras por impulso não obedece à nossa força de vontade, porque ele está sob o comando daquela parte de nós que só revela seus rastros, nunca o que anda tramando, chamada inconsciente. E quando o inconsciente dispara uma compra por impulso, ele está no pé do seu ouvido te dizendo “você precisa descobrir isso sobre você” (ele é tipo sua mãe dizendo “leva o casaco que pode chover”). Descobrir a qualidade de sua autoestima, ou do quão boa está sua responsabilidade com sua vida adulta. Ou qualquer outra coisa que ele considere importante.

Não estou dizendo para você sair comprando impulsivamente tudo o que vem de gatilho interno. Não vá dizer por aí que leu no texto da psicóloga que é maravilhoso comprar tudo o que quiser para se conhecer profundamente. Mas eu te digo que suas compras revelam partes suas que nem sempre estão conscientes, e isso também é processo de autoconhecimento.

No fim, você pode descobrir que uma compra pode ser menos sobre ter um objeto para si, e muito sobre quem você está se tornando, ou quais partes de seu interior precisam de sua atenção.

Um abraço,

Sara Matos

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