Um tempo atrás, assisti um episódio da série Industry. Nele, Harper é uma mulher negra, jovem, e seu chefe diz que quer conversar em particular com ela sobre trabalho. Eles entram na sala e ele imediatamente tranca ambos dentro. A conversa é ameaçadora, em tom agressivo na voz, nos gestos e no uso de palavras, e ela fica encurralada. Eu me senti tremendamente incomodada com a cena toda. Não apenas porque é angustiante, mas por saber que é o que acontece todos os dias em muitas empresas. Poucas de nós sabem identificar abusos e/ou violência psicológica no ambiente corporativo quando acontece, e um número menor ainda sabe como lidar e o que fazer ao passar por um.
O QUE É ASSÉDIO E VIOLÊNCIA NO TRABALHO?
Assédio é toda forma de exposição de um indivíduo a situações constrangedoras, humilhantes, difamatórias e/ou intimidatórias feitas de forma repetitiva, com o intuito de desestabilizar emocionalmente o indivíduo que sofre o assédio, degradar o ambiente de trabalho ou obter favores sexuais, em troca de benefícios corporativos ou até mesmo manutenção do vínculo empregatício. Ele pode ser moral, quando a violência desestrutura emocional ou psicologicamente um indivíduo, e pode ser sexual, quando a violência força um indivíduo a conceder favores sexuais usando abordagens indesejadas, ocorrendo de forma vertical (superior/subordinado) ou horizontal (entre colegas). E, apesar de ainda não ser abordado de forma mais ampla e com a seriedade que o tema exige, também acontece entre cliente/funcionário, sendo responsabilidade da empresa garantir que seus funcionários tenham um ambiente de trabalho protegido de assédio.
Todo e qualquer assédio é uma forma de violência no trabalho e, desde 2023, está previsto em lei, podendo dar em 1 a 2 anos de detenção. Nos últimos 5 anos, foram mais de 450mil casos de assédio moral julgados pelo Tribunal do Trabalho. https://www.cnj.jus.br/em-cinco-anos-justica-do-trabalho-julgou-mais-de-450-mil-casos-de-assedio-moral/
“EU PAGO SEU SALÁRIO…”
Assédio não é um ato descontrolado, impensado, feito no calor de uma situação ou emoção, mas uma atitude deliberada com a intenção de desestabilizar alguém e estabelecer e/ou manter uma relação de poder, de dominação hierárquica. São ataques pessoais (ao gênero, à aparência, à raça, à orientação sexual, à cultura, à orientação religiosa), intencionais e habituais que fazem de uma simples interação ou “brincadeira” um assédio.
O dinheiro (salário/faturamento) costuma ser usado como justificativa para manter um assédio ativo. É comum frases como “eu preciso do emprego”, “esse cliente representa uma parte alta do faturamento”, “eu pago seu salário” dentre outras serem ditas para silenciar qualquer tentativa de defesa por parte do assediado.
“TODO MUNDO SABE, NINGUÉM FAZ NADA”
Em 2025, a consultoria para equidade de gênero Think Eva e o LinkedIn refizeram uma pesquisa sobre assédio moral e sexual no ambiente de trabalho, e trouxeram excelentes insights sobre o tema. https://thinkeva.com.br/wp-content/uploads/2025/09/TSA_2025_Eva_Linkedin.pdf
Segundo a pesquisa, casos de assédio tem sido testemunhados quase que diariamente dentro das empresas. Mulheres, principalmente as negras e pardas que recebem até 5 salários mínimos de remuneração, são as mais atingidas, mas casos de assédio estão presentes em todas as camadas hierárquicas. Apesar da grande maioria buscar suporte quando atravessa uma situação de assédio, esse suporte tem sido encontrado mais fora das empresas que dentro, provavelmente por medo da impunidade e/ou o medo da retaliação (demissões, ser colocada na “geladeira”, etc).
Empresas ainda patinam para proteger seus funcionários da violência no trabalho. Muitas não tem espaço seguro para formalização de denuncias, não tem um manual/cartilha que oriente seus funcionários sobre como identificar e agir em casos de assédio, ou não tem uma área de RH preparada para lidar com assédios de qualquer tipo.
“NUNCA FALEI COM NINGUÉM SOBRE ISSO…”
A pesquisa põe uma lupa num assunto que segue ainda como tabu. Entre 80% e 90% dos entrevistados sabe o que é assédio, mas metade deles não busca mais informações ou conversa sobre o assunto. Quem busca conversar sobre isso, o faz fora da empresa… é quando chegam nas sessões de terapia para elaborar o que acontece.
Quando começam a trazer o assunto para sessão, percebo ser comum que o assédio esteja acontecendo há meses até que a pessoa assediada compreenda que o desconforto que ela sente de forma frequente diante de uma situação, de determinado colega de trabalho, do chefe ou de cliente não é frescura, sensibilidade excessiva, exagero ou até mesmo birra (palavras delas). Há uma demora em se identificar uma situação de assédio, por mais informadas que elas sejam. Mulheres tendem a se sentir culpadas pelo assédio que sofrem, vergonha de passarem por isso, se questionam com mais frequencia se não deveriam relevar a situação, se elas fizeram algo para provocar a situação, se não estão exagerando na reação, se alguém acreditaria nelas se contassem o que viveram.
Ou seja, por mais que a pesquisa afirme que há uma maior consciência, conhecimento e capacidade de identificar um assédio quando ocorre, que dados afirmem que há um aumento no número de processos trabalhistas sobre assédio, ainda percebo no microcosmo do ambiente terapêutico uma lentidão do reconhecimento subjetivo e validação interna do assédio, já que muitas formas de assédio são passivo-agressivas, ou seja, disfarçadas de elogios, de críticas construtivas ou de brincadeiras.
“MEU CHEFE ME ACOMPANHOU ATÉ O METRÔ E, LÁ, ME PEDIU UM BEIJO”
Há sinais clássicos envolvendo assédio moral ou sexual.
Na presença de assédio sexual, existem sinais mais sutis como olhares lascivos, brincadeiras de cunho sexual, elogios de ordem não profissional e comentários sobre o corpo, e também sinais mais constrangedores como contato físico não solicitado, mensagens de cunho sexual, solicitação de favores sexuais ou pressão para encontros, sejam eles presenciais ou on-line.
Já em casos de assédio moral, sinais comuns que eles estão presentes são: humilhação pública ou brincadeiras indesejadas realizadas em frente a colegas, gritos, xingamentos e explosões de raiva constantes por parte de um superior hierárquico, ameaças de demissão ou chantagem no trabalho, prejudicar ou perseguir uma pessoa, dar apelidos ofensivo e indesejados de forma constante, fazer comentários inadequados sobre aparência, gênero, origem ou cultura de uma pessoa, cobranças excessivas e injustificadas por um superior hierárquico e minimizar problemas relacionados ao assédio.
Se você trabalha em uma empresa, vai perceber que todos esses sinais são vistos diariamente no ambiente de trabalho. Talvez você tenha passado por qualquer situação dessas e não a tenha compreendido como assédio, afinal tudo isso costuma ser normalizado no corporativo. Acontece há anos, mas agora estamos dando nome para isso.
E mesmo reconhecendo e nomeando todos esses sinais como assédio, é comum eu encontrar mulheres que levam muito tempo para confirmar internamente se o que está acontecendo é ou não assédio.
Eu costumo orientar clientes a validarem seus sentimentos internamente, usando suas próprias reações corporais como bússola. O corpo mostra em tempo real se uma situação vivida é considerada ameaçadora à integridade ou não. Em sessão, pergunto: se eu te digo que você precisa interagir novamente com essa pessoa, o que você sente fisica e/ou emocionalmente? Se há violência presente, as respostas comuns são: medo, angústia, raiva, mãos frias, coração acelerado, dificuldade para relaxar mesmo na ausência dessa pessoa, dificuldade em dormir um dia antes de interagir com a pessoa.
Para a justiça brasileira, só se configura assédio passível de denúncia e processo se as situações acima acontecerem de forma constante. Casos pontuais ou isolados são tratados com menos importancia para a justiça, mas não para o corpo e saúde mental da mulher. Um único episódio pode desencadear questões de saúde mental que tomam um tempo para serem restaurados.
“EU ME CULPO PORQUE NÃO CONSEGUI REAGIR.”
O trabalho é parte importante da vida. É nele que recebemos um salário que nos permite fazer manutenção de nossa vida. É dele que vem nossa subsistência, nosso sustento. Por isso mesmo, precisa ser um ambiente que nos dê segurança. Quando de alguma forma ele é ameaçado (como em casos de assédio), vamos reagir com as 4 principais defesas que estão presentes em nosso corpo: agradar em excesso, esquiva, luta e congelamento. Todas essas defesas são biológicas, automáticas, não passam pelo crivo da consciência e, portanto, não podem ser controladas pela força da vontade. Elas apenas acontecem sem que você tenha controle sobre elas e visam garantir sua sobrevivência em ambientes hostis.
A primeira delas é o agradar extremo. Chamamos esse estado de “people pleaser”, que é quando alguém quer excessivamente agradar a ponto de colocar o bem estar do outro acima do seu, resultando na dificuldade em dar limites e na evitação de conflito. Costuma ser o momento em que a pessoa que foi assediada repete para si mesma “ele tem razão, essa roupa tira a atenção dos homens no trabalho”, “eu errei e mereci seus berros e a humilhação”, “se eu não fizer isso, vou perder meu emprego”. Ela tende a evitar conflitos, a dizer “sim” quando deseja dizer “não”, assumir responsabilidades que não lhe cabem, e tem muito medo de ser rejeitada.
Outra defesa usada com frequencia é a esquiva, que tem desde reações mais sutis como evitar contato com o colega assediador, pedir para alguém resolver a situação para ela, ou pode chegar à reações mais intensas de fuga, como pedir demissão, faltar trabalho e reuniões. Tudo para evitar o contato com o assediador/situação e o confronto.
A terceira defesa é o confronto direto. O corpo sente raiva, quer gritar e brigar pela sua segurança, confrontar o assediador. Essa defesa costuma ser a menos utilizada, já que cai em e reforça o estereótipo da mulher raivosa (”nossa… você não está exagerando na reação? foi só um elogio!”) no ambiente de trabalho, dando margem para que haja retaliação direta tanto do assediador como da empresa, podendo chegar a demissão.
A última defesa do corpo para casos de assédio é o congelamento ou paralisia das reações. Diante de uma situação em que aquela que sofre assédio se sente ameaçada, sem a possibilidade de agradar, de se esquivar da situação ou de lutar (como no caso da cena na série Industry), o corpo reduz suas funções vitais aos máximo que conseguir, resultando em um estado de congelamento e paralisia. É uma reação biológica automática, impossível de ser controlada pela força de vontade da consciência, e que acaba resultando em pensamentos de culpa e vergonha. Frases como: “me culpo pelo que aconteceu porque não consegui reagir” ou “eu deixei acontecer…” reforçam na psique/mente da mulher que ela é, no mínimo, corresponsável pela situação de violência que viveu, o que não é verdade.
“NÃO ERA MINHA INTENÇÃO”
Assediadores tem bastante dificuldade de assumir a responsabilidade pelos seus atos, se valendo de uma possível não intenção no assédio ou culpabilizando suas vítimas por atos que são seus próprios. Acabam usando a paralisia da reação como justificativa para sua suposta inocência: “se ela não quisesse, ela teria dito”.
É importante salientar que nada na reação de uma mulher justifica outra pessoa de continuar agindo de forma violenta ou ameaçadora. Reações fisiológicas a uma situação hostil não passam pela decisão consciente e não minimizam o ocorrido. Situações violentas ou hostis, sejam elas pontuais ou frequentes, prejudicam a saúde mental de uma pessoa a ponto de as consequencias serem complexas de serem desfeitas.
“NÃO TENHO MAIS VONTADE DE IR TRABALHAR”
Na pesquisa, foram levantadas as principais reações de um funcionário diante de um assédio: não falar sobre o assunto, trocar de emprego, perda de auto-estima, não querer mais trabalhar, redução de desempenho, solidão, depressão, crises de ansiedade/pânico, etc.
Tudo isso é consistente com o que presencio diariamente em sessões no consultório. Dependendo da intensidade e/ou frequencia com que o assédio acontece, bem como o quão rápido o funcionário busca ajuda, pode deixar consequencias para a saúde mental difíceis de se lidar.
E se você ainda tem dúvidas se está ou não vivendo assédio, vou te fazer algumas perguntas:
a. Você sente palpitação, taquicardia, respiração curta e rápida ou ansiedade ao saber que, quando chegar no trabalho, encontrará um certo colega de trabalho, que vai interagir com um superior específico ou algum cliente?
b. Ao pensar em entrar numa reunião com determinada pessoa, você protela, reagenda, atrasa, marca outros compromissos no mesmo horário, ou faz de tudo para não ir sozinha para a reunião?
c. Depois de alguma situação intensa, envolvendo qualquer tipo de “brincadeira”, piada fora de hora, gritos, berros e xingamentos, você tem vontade de mudar de emprego?
d. Você sente que se disser “não” para os excessos (ligações fora do horário de trabalho, responder emails de madrugada, trabalhar aos fins-de-semana, etc) você sofrerá represálias, críticas, ou até mesmo poderá perder seu emprego?
e. Você pensa em trocar todo o seu guarda-roupas para evitar olhares e comentários sobre sua aparência?
f. Você esconde sua cultura, sua orientação sexual, sua religião e/ou qualquer parte da sua identidade por medo de represália, chacota, humilhação?
g. Depois de uma situação ou interação com determinada pessoa no ambiente de trabalho, você sentiu que você passou a duvidar mais de si mesma, da sua capacidade e do seu valor próprio?
h. Depois de uma situação ou interação com uma pessoa específica você passou a trabalhar muito mais e entrar em burnout porque parece que nada do que você entrega de resultado (entendendo que você cumpre todas as suas metas e que suas metas são factíveis) é o suficiente?
i. Depois de uma situação ou interação com uma pessoa específica no trabalho você sente que a vida perdeu a cor, você perdeu o prazer que sentia de trabalhar e produzir resultados?
j. Você sente um agravamento ou piora de sua saúde mental (crises ansiedade, depressão, burnout, crise de pânico e medos sem motivo aparente, podendo chegar em alguns casos na aparição de ideação suicida) depois de interagir com uma pessoa ou passar por uma situação específica no trabalho?
Se você respondeu “sim” a qualquer uma dessas perguntas, está na hora de buscar ajuda.
“EU NÃO SEI O QUE FAZER!”
Claro que a primeira ação deveria ser deixar o ambiente hostil, mas essa nem sempre é uma possibilidade imediata e/ou desfaz os sintomas de saúde mental que já tenham se instalado.
É preciso buscar um profissional de saúde mental capacitado para superar as feridas emocionais e mentais deixadas pela situação. Recuperar auto-estima, se sentir capaz de se proteger e se manter em segurança, voltar a sentir prazer em trabalhar, voltar a acreditar em si mesma, tudo isso é trabalhado em sessão de terapia.
Adicional a isso, recomendo às minhas clientes mais dois caminhos: 1. fazer algum tipo de arte marcial ou aulas de defesa pessoal, para que o corpo tenha recursos físicos de autodefesa (se o corpo não reconhece recursos próprios de autodefesa, ele entra mais vezes em estado de congelamento); 2. registrar todas as interações com o assediador, para que você não tenha dúvidas do que está acontecendo e, se for necessário, buscar na justiça reparação de danos.
“NO TRABALHO VAI BEM, MAS EM OUTRAS PARTES DA VIDA…”
Talvez seu trabalho seja um espaço seguro e livre de assédio, e isso é muito bom! Mas não significa que outras partes da sua vida, ou em outras relações, você se sinta segura por completo.
Saiba identificar em quais relações a violência é parte da dinâmica da relação e busque ajuda. Relações nas quais você conta uma intimidade sua e o outro usa isso para te machucar ou manipular. Pessoas que minam sua auto-estima para te convencer que você não sobrevive sem elas.
Qualquer relação ou ambiente que faça você sentir que não há segurança ali, é uma relação ou ambiente que deve ser deixado.
E se precisar de ajuda, me mande uma mensagem.
Um abraço,
Sara.
