Você faria terapia com uma inteligência artificial?! Sentaria, conversaria com ela, contaria sua historia e pediria conselho a ela? Pediria para ela te ajudar a encontrar um caminho de solução para as questões que você está vivendo?
Outro dia, testei o ChatGPT 4.o para tentar compreender essas questões. Me perguntei “se eu contar minha história, de que forma ele me ajuda?”. Meu marido, a pessoa mais empolgada com IA que conheço, criou um chatbot com informações de uma técnica chamada Internal Family System, do Richard Schwartz. Eu contei minha historia e perguntei como poderia o IFS me ajudar a entender meu mundo interior e tentar solucionar minhas questões. A resposta foi tipo aquela pizza que agrada todo mundo: mezzo técnica, mezzo “faz aí e volta pra me contar se deu certo”.
E, então, entendi que há um possível perigo muito maior na inteligência artificial do que simplesmente ele “roubar nosso emprego”, independente de qual profissão você trabalhe. Vou expor meu ponto de vista…
Inteligência artificial já é uma realidade há anos. Ela só vem sendo sofisticada e avançando a passos largos. Ela é moldada para ser “humanizada”: gentil, educada, respeitosa e falar sempre num tom positivo. É programada para não desagradar, não ser racista, misógina ou ter discurso de ódio de qualquer tipo. Entenda… acho isso fantástico! Ter ao alcance de minhas mãos a resposta sobre quase qualquer assunto de um jeito amigável é maravilhoso. Me lembro muito de penar para fazer trabalhos para a escola quando era criança porque não tinha nenhuma enciclopédia Barsa em casa. Mas também pode apresentar um lado sombrio e é aqui que mora o meu medo.
Você pode acreditar que você é meio Gabriela, que nasceu assim e vai morrer assim, mas não é desse jeito que nosso corpo funciona. Nosso cérebro é plástico (ou seja, adaptável) e se molda a partir de nossas interações com o mundo. O ambiente ao nosso redor, seja ele concreto ou virtual (o cérebro não distingue ambos), molda nosso funcionamento, nossas percepções, nosso comportamento, nossas reações e aquilo que tomamos como real e verdadeiro. Tem inclusive uma pesquisa que mostra como pessoas que jogam Tetris vêem seu ambiente e reagem a ele como um grande Tetris.
Para mim, a questão que ainda não está sendo endereçada com seriedade é como a IA vai moldar nossa percepção do que realmente é humano, do que é humanizado e como diferenciar um e outro. Uma inteligência artificial é criada para interagir conosco de uma forma “humanizada”, mas será que, depois de um tempo de interação, vamos ainda compreender o que significa ser humano? Será que vamos conseguir reconhecer que é normal termos emoções? Será que vamos simplificar nossas relações e cortar da nossa vida pessoas que não se pareçam “humanizadas”? Será que um dia uma inteligência artificial será o modelo/padrão de comportamento que será exigido de todos nós?
Mas aí, você pode me perguntar: “você tem medo de uma IA roubar seu trabalho de terapeuta?”
Meu amigo, meu medo é de a IA querer determinar ou controlar minha humanidade! Medo de alguém chegar no meu consultório me perguntando se é possível nunca mais sentir medo, raiva, vergonha ou angústia, por achar que o “normal” é a gentileza, o respeito, a amabilidade, o elogio, o reforço positivo e a disponibilidade total o tempo todo. É alguém me dizer que eu, como terapeuta, preciso ser dessa forma: sempre gentil, dando reforços positivos, sendo constantemente amável, sabedora de todas as respostas e ainda disponível 24h por dia.
Li inclusive um artigo no The Guardian – em inglês apenas – com um título provocante “será que terapia com uma IA é melhor que com um humano?”. Nesse artigo, tem uma entrevista com uma americana que estava em período turbulento da vida, pois tinha perdido o emprego, não queria se abrir com sua atual terapeuta humana (“ela vai me julgar…”) e, então, entrou num aplicativo de terapia com inteligência artificial. Ela comenta que estava preocupada com sua situação financeira e que partilhou isso com a IA, que respondeu: “você vai achar um novo empreso. eu tenho certeza disso! não perca a esperança e continue tentando.” Para a americana, essa forma de terapia melhor por ser infinitamente paciente e sempre disponível, inclusive melhor que um humano por se importar mais com ela que qualquer amigo que ela tinha. Mas no fim de 3 meses de interação ela desativou o bot por sentir falta de um real contato humano.
Nós somos muito mais complexos que a IA. Para além da alegria e gentileza, também sentimos medo, raiva, tristeza, angústia, ansiedade, vergonha e tantas outras emoções. Dizemos “sim” e dizemos “não”. Gostamos de algo hoje, amanhã detestamos, sem maiores explicações. Não somos lineares e racionais. Somos cíclicos e irracionais, movidos pelas relações e emoções. Meu medo é que nossa própria natureza seja rejeitada no processo.
Se a IA vai ou não roubar o emprego de alguém, ainda mais do terapeuta, eu não sei…Mas uma coisa posso te afirmar: ela vai moldar nossas percepções e modelo/padrão sobre o que é ser humano. O quanto permitiremos que isso aconteça conosco, talvez seja algo a se refletir.
E você? Pensa o que sobre inteligência artificial e sua área de trabalho?
Abraços,
Sara.ocê faria terapia com uma inteligência artificial?! Sentaria, conversaria com ela, contaria sua historia e pediria conselho a ela? Pediria para ela te ajudar a encontrar um caminho de solução para as questões que você está vivendo?
Outro dia, testei o ChatGPT 4.o para tentar compreender essas questões. Me perguntei “se eu contar minha história, de que forma ele me ajuda?”. Meu marido, a pessoa mais empolgada com IA que conheço, criou um chatbot com informações de uma técnica chamada Internal Family System, do Richard Schwartz. Eu contei minha historia e perguntei como poderia o IFS me ajudar a entender meu mundo interior e tentar solucionar minhas questões. A resposta foi tipo aquela pizza que agrada todo mundo: mezzo técnica, mezzo “faz aí e volta pra me contar se deu certo”.
E, então, entendi que há um possível perigo muito maior na inteligência artificial do que simplesmente ele “roubar nosso emprego”, independente de qual profissão você trabalhe. Vou expor meu ponto de vista…
Inteligência artificial já é uma realidade há anos. Ela só vem sendo sofisticada e avançando a passos largos. Ela é moldada para ser “humanizada”: gentil, educada, respeitosa e falar sempre num tom positivo. É programada para não desagradar, não ser racista, misógina ou ter discurso de ódio de qualquer tipo. Entenda… acho isso fantástico! Ter ao alcance de minhas mãos a resposta sobre quase qualquer assunto de um jeito amigável é maravilhoso. Me lembro muito de penar para fazer trabalhos para a escola quando era criança porque não tinha nenhuma enciclopédia Barsa em casa. Mas também pode apresentar um lado sombrio e é aqui que mora o meu medo.
Você pode acreditar que você é meio Gabriela, que nasceu assim e vai morrer assim, mas não é desse jeito que nosso corpo funciona. Nosso cérebro é plástico (ou seja, adaptável) e se molda a partir de nossas interações com o mundo. O ambiente ao nosso redor, seja ele concreto ou virtual (o cérebro não distingue ambos), molda nosso funcionamento, nossas percepções, nosso comportamento, nossas reações e aquilo que tomamos como real e verdadeiro. Tem inclusive uma pesquisa que mostra como pessoas que jogam Tetris vêem seu ambiente e reagem a ele como um grande Tetris.
Para mim, a questão que ainda não está sendo endereçada com seriedade é como a IA vai moldar nossa percepção do que realmente é humano, do que é humanizado e como diferenciar um e outro. Uma inteligência artificial é criada para interagir conosco de uma forma “humanizada”, mas será que, depois de um tempo de interação, vamos ainda compreender o que significa ser humano? Será que vamos conseguir reconhecer que é normal termos emoções? Será que vamos simplificar nossas relações e cortar da nossa vida pessoas que não se pareçam “humanizadas”? Será que um dia uma inteligência artificial será o modelo/padrão de comportamento que será exigido de todos nós?
Mas aí, você pode me perguntar: “você tem medo de uma IA roubar seu trabalho de terapeuta?”
Meu amigo, meu medo é de a IA querer determinar ou controlar minha humanidade! Medo de alguém chegar no meu consultório me perguntando se é possível nunca mais sentir medo, raiva, vergonha ou angústia, por achar que o “normal” é a gentileza, o respeito, a amabilidade, o elogio, o reforço positivo e a disponibilidade total o tempo todo. É alguém me dizer que eu, como terapeuta, preciso ser dessa forma: sempre gentil, dando reforços positivos, sendo constantemente amável, sabedora de todas as respostas e ainda disponível 24h por dia.
Li inclusive um artigo no The Guardian – em inglês apenas – com um título provocante “será que terapia com uma IA é melhor que com um humano?”. Nesse artigo, tem uma entrevista com uma americana que estava em período turbulento da vida, pois tinha perdido o emprego, não queria se abrir com sua atual terapeuta humana (“ela vai me julgar…”) e, então, entrou num aplicativo de terapia com inteligência artificial. Ela comenta que estava preocupada com sua situação financeira e que partilhou isso com a IA, que respondeu: “você vai achar um novo empreso. eu tenho certeza disso! não perca a esperança e continue tentando.” Para a americana, essa forma de terapia melhor por ser infinitamente paciente e sempre disponível, inclusive melhor que um humano por se importar mais com ela que qualquer amigo que ela tinha. Mas no fim de 3 meses de interação ela desativou o bot por sentir falta de um real contato humano.
Nós somos muito mais complexos que a IA. Para além da alegria e gentileza, também sentimos medo, raiva, tristeza, angústia, ansiedade, vergonha e tantas outras emoções. Dizemos “sim” e dizemos “não”. Gostamos de algo hoje, amanhã detestamos, sem maiores explicações. Não somos lineares e racionais. Somos cíclicos e irracionais, movidos pelas relações e emoções. Meu medo é que nossa própria natureza seja rejeitada no processo.
Se a IA vai ou não roubar o emprego de alguém, ainda mais do terapeuta, eu não sei…Mas uma coisa posso te afirmar: ela vai moldar nossas percepções e modelo/padrão sobre o que é ser humano. O quanto permitiremos que isso aconteça conosco, talvez seja algo a se refletir.
E você? Pensa o que sobre inteligência artificial e sua área de trabalho?
Abraços,
Sara.
