Um dia, tive uma das conversas mais difíceis com minha mãe: “Mãe, você tem amigas?”, “Eu tenho você!”, “Poxa, mãe… Me desculpa, mas eu, sozinha, não dou conta de ser seu-tudo. Acho que está na hora de você pensar em ter amigas.”
Já percebeu como nós, mulheres, estamos mais conectadas com amigas hoje do que em gerações passadas? Mulheres das gerações nascidas até os anos 60/70, como minha mãe, cresceram acreditando que mulheres são competitivas e vão puxar o tapete uma da outra, e que sua família deveria ser sua única relação significativa. Afinal, se família é para sempre, pra quê alguém iria investir numa outra relação que não fosse com a família?
Gerações mais novas de mulheres tem aprendido na vida como ter uma relação saudável com outras mulheres, ter amigas e construir relações significativas com elas pode ser tão importante (ou mais!) para sua saúde mental como se relacionar com a família (claro, quando é possível). Bom, pelo menos eu tenho embarcado nessa jornada de ter amigas para muito além da minha família, seja a de origem, seja a que estou construindo.
Uma coisa mágica aconteceu desde que me abri para esse espaço de ter amigas (sem laços de sangue): eu me conheci mais e amadureci no processo. Uma das funções das nossas relações é servir de “tela de projeção” para que partes nossas possam existir no mundo e aprendamos a lidar com elas, sem que tenhamos que enfrentá-las diretamente dentro de nós.
Acho que vale a pena eu te explicar isso…
Dentro de nós, existem muitos conteúdos emocionais, memórias, histórias, crenças e muito mais que desconhecemos. Eles ficam no misterioso inconsciente, que ninguém sabe com certeza o que é, até onde se estende, onde fica, o que ele guarda, nem como ele funciona, mas a gente sabe que ele tem tudo sobre nós que desconhecemos e/ou temos dificuldade em lidar. Esses conteúdos não ficam inertes dentro da gente, esperando para serem “ativados”. Eles são vivos e é nas nossas relações que eles se revelam para a consciência, se tornam conscientes.
Quando temos relações significativas, esses conteúdos se projetam nelas e se fazem conhecidos pela nossa consciência. Isso significa que o outro vira um representante de algo que, em mim, tenho dificuldade de reconhecer como meu. Exemplos práticos: se eu nego que sou chata, então eu acho que o outro é chato e não eu! se eu não aceito que sou ignorante em alguns conhecimentos, eu vou achar que o outro que é ignorante, não eu! E por aí vai…
Por isso, ter amigas é abrir espaço para que esses nossos aspectos desconhecidos que não aceitamos possam ter um lugar para se mostrar e aprendermos a lidar com eles. E uma projeção pode acontecer na realidade concreta, e também na realidade psíquica.
Na realidade concreta, é aquele momento em que vemos na nossa frente esses conteúdos internos ganhando vida, voz e movimento com nome-e-sobrenome. Já vi isso acontecer em atendimento: uma mulher passou por um relacionamento abusivo, saiu dele e, anos depois, viu uma amiga na mesma situação… quando a amiga ligou para desabafar sobre sua relação e a minha cliente ouviu a historia, ela começou a ter sentimentos que, um tempo depois, compreendeu que eram dela mesma, processando partes do seu próprio término que estavam vindo a tona por causa da semelhança entre sua própria historia e a da amiga. Partes que, sem a amiga, talvez ficassem anos sem serem processadas.
Mas a projeção também vem por dentro, na presença da imaginação e fantasia interiores. Quem nunca teve uma “DR imaginária” daquelas com uma amiga? Esse processo também é uma projeção, mesmo que se passe apenas na tela mental. Na sua cabeça, a amiga fala, sente e te responde de uma determinada forma que nem sempre condiz com a amiga de carne-e-osso… ela vira uma representação de algo que em você está excluído da sua consciência e só pode ser visto quando está “no outro”. (serve para amigas, serve para a cópia da sua terapeuta que mora em você 😂)
Ta, mas o que eu acho de alguém é projeção minha ou a pessoa é chata mesmo? Para saber se é projeção sua ou não, basta perceber como sua reação emocional te protege daquilo que está chegando perto da consciência. Se até o som da pessoa mastigando te irrita, há uma chance enorme de ser projeção.
E, se for mesmo algo seu que está projetado no outro, lidar com isso requer que você: 1. reconheça que o que você está vendo pode não ser verdade; 2. reconheça que o que você está vendo pode ser seu; 3. traga de volta para si esse aspecto para lidar com ele de um jeito diferente. Às vezes, é preciso ajuda de um profissional para fazer isso.
Eu tenho a imensa sorte de ter amigas de carne-e-osso que me tratam com respeito e, na maioria das vezes, suportam minhas projeções com muita paciência. Bom, na minha cabeça elas sempre fazem “hora extra” e nem sabem! Com elas aprendo e cresço. E meu amor e admiração por elas só aumenta.
Meu conselho? Tenha amigas (e uma boa terapeuta para te ajudar a sair de projeções!)
Um beijo,
Sara.
