A relação entre ciclo menstrual e dinheiro

Sim, eu sei. Se você é mulher cisgênero, você provavelmente viverá mais tempo de sua vida dentro do seu ciclo fértil que fora dele. Uma mulher, no Brasil, tem expectativa de vida de 79 anos em média, sendo que 40 destes anos ela estará menstruando. Considerando que nossa vida economicamente ativa vai variar dos 16 aos 65 anos (segundo o PEA), a maioria desses anos uma mulher passará menstruando.

Mas será que sabemos todas o impacto psicológico do ciclo menstrual na forma como gastamos nosso dinheiro e, principalmente, como geramos renda dentro do nosso período fértil?

Existem tímidas pesquisas sendo escritas sobre o impacto econômico do ciclo menstrual de mulheres, mas voltado principalmente para a parte do consumo: por exemplo, mulheres no final do ciclo (próximas à menstruação) tem muito menos controle de seus gastos versus no período logo após a menstruação. (comportamento de compras de mulheres em seus ciclos menstruaiscomo contraceptivos orais agem no processo de recompensadinheiro, status e ciclo menstrual). E mesmo nessas pesquisas, já se compreende que ninguém está realmente indo atrás de saber como a parte economicamente ativa da mulher se conecta com seu período de fertilidade ativa.

Mesmo não existindo pesquisas sobre isso, eu vejo nas queixas ouvidas em consultório como a vida financeira, principalmente a geração de renda, dessas mulheres é impactada por seus ciclos. Em sua grande maioria, minhas clientes são mulheres entre 30 a 45 anos. Conheço angústias que são vividas por mulheres simplesmente por, biologicamente, terem nascido com ovários e útero. “Tem uma vaga nova na empresa… quero muito crescer! Mas se eu aceitar, será que vou ter que adiar o desejo de ter filhos?” “Sou autônoma, então se trabalho, eu tenho ganhos. Mas estou de TPM, sem muita simpatia ou paciência, ou tenho cólicas que me fazem ficar prostrada por um dia, como é que trabalho com isso?” “Estou mais sensível esses dias, então preciso me segurar o dobro porque se eu falar o que realmente está aqui dentro serei demitida.” “Ontem eu me sentia ótima e produtiva, mas hoje estou me sentindo sem energia. Porque eu não consigo ficar estável no mês inteiro?”

Não é fácil trabalhar e gerar renda sendo mulher numa sociedade que exige de nós atitudes e comportamentos que não cabem num ciclo menstrual. Trabalhos que desejam que mulheres sejam produtivas de forma constante/equilibrada o mês inteiro, que esperam que lidemos com nossas dores menstruais fora do ambiente de trabalho, que estejamos comunicativas (e simpáticas!) o mês inteiro de forma igual, ou que tenhamos filhos segundo o calendário do planejamento estratégico da empresa. Normalizamos tanto essa adaptação que já pensamos desse jeito nós mesmas, mesmo que vá contra nossa própria natureza.

Nossa menstruação, de forma física e psicológica, impacta diretamente nossa vida financeira, na geração de renda. Quer ver só?

Na menstruação, fisicamente nossos hormonios estão mais baixos. Isso também nos impacta psicologicamente: nossa libido (aquela força interna de desejo, vontade para fazer e realizar) estará mais baixa. Ou seja, estaremos mais introspectivas, meditativas, recolhidas emocionalmente. De 3 a 5 dias, a produtividade não estará alta, por mais que você tente. Se você tem um projeto a entregar, uma entrega importante, um cliente para fechar e etc, nesses dias você vai precisar se esforçar bastante para se manter aberta ao mundo externo.

Logo após a menstruação, os hormonios começam a voltar, com uma elevação de estrogenio. Esse hormonio pode ser convertido em testosterona pelo corpo, fazendo com que você sinta que a energia está voltando. Psicologicamente, estamos mais ativas, mais focadas, parece uma etapa mais solar do ciclo menstrual. Então, entre 7 e 10 dias, você estará numa fase produtiva e cheia de energia. Aqui, é a fase que desejaríamos viver de forma permanente o mês inteiro. Nossa sociedade da produtividade e do desempenho valoriza mulheres nessa fase. Basta dar uma busca por “mulher bem sucedida” e você verá que não existem fotos de mulheres na meia-idade, com filhos, grávidas. Apenas mulheres “solares”. 

Na fase de ovulação, hormonios alteram novamente. Há a presença de estrogenio e entra o LH. Psicologicamente, pode haver uma mudança no humor da mulher, fazendo com que ela se sinta mais criativa, mais conectada com um espaço de criar e desejar. O desejo aumenta, a libido aumenta e a mulher pode se sentir mais feminina. Na geração de renda, como a produtividade ainda existe, mesmo que baixe um pouco, a criatividade é muito bem vinda. Produzir, ser eficiente e ainda ser criativa nas soluções? Mulher-modelo socialmente aceita como a mulher economicamente ativa. Pelo menos por 3 a 5 dias.

Mas na fase pós-ovulação é quando o estrogênio baixa, a progesterona (hormonio responsavel pela preparação do utero para a gravidez) aumenta e há uma influencia da testosterona. A libido aumenta, mas também há uma instabilidade do humor, causando a famosa tensão pré-menstrual. Psicologicamente, essa fase é a que as barreiras entre consciente e conteúdos do inconsciente ficam mais fluidas, fazendo com que conteúdos que foram “abafados” durante o período venham para a superfície com mais força. Precisei engolir sapo para poder entregar aquele projeto? Trabalhei durante horas a fio sem prestar atenção às minhas emoções, exaustão e cuidados com corpo/alimentação? Vem tudo à tona. Há uma sensibilidade emocional muito maior e, portanto, uma variação na produtividade e na coordenação das emoções diante do outro. Se eu tenho um cargo ou trabalho que depende da minha capacidade de lidar com minhas emoções (ou melhor dizendo, que exige que eu seja simpática e gentil a maior parte do tempo), eu vou precisar ficar muito mais atenta se eu quiser que minha renda seja menos abalada.

Percebe que, num único mês, uma mulher vive altos e baixos hormonais que estão fora do seu controle, interferem na sua capacidade de gerenciar suas emoções e, consequentemente, na sua geração de renda? Não me admiraria se alguém um dia descobrisse que mulheres são mais demitidas por fatos que aconteceram em seus períodos de TPM do que em outros períodos do mês.

E você? Já percebeu como seu ciclo menstrual interfere na sua geração de renda? Já percebeu como sua renda varia (se você for autônoma) segundo seu ciclo menstrual?

Uma boa forma de perceber isso é anotando. Depois de alguns meses de coleta de dados, você vai perceber um padrão bem particular seu, do seu ciclo, que pode estar influenciando sua geração de renda.

Bom, acho que essa conversa não está longe de acabar, mas vou ficar por aqui porque acho que já tem bastante para você refletir sobre isso.

Um beijo,

Sara.

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