Desde que comecei meu caminho dentro da psicologia, minha busca por autoconhecimento se tornou minha meta pessoal. Considero todas as pessoas com quem convivo profissional ou socialmente meus mestres nessa minha busca pelo conhecimento pleno de quem eu sou. Aprendo com todos e cada um que se chega me mostra um lado diferente meu que eu preciso conhecer, compreender e amar. Lembro que um dos primeiros choques que tive nesse caminho foi quando percebi todas as máscaras que eu vestia. Mas não só eu! Minha percepção se ampliou e vi que todos usavam máscaras que escondiam suas histórias. Me perguntava se realmente era necessário usarmos tantas camadas, escondermos nossa essência, nossas dores, quem éramos. Quando comecei, acreditava mesmo que precisava delas para poder conviver com o outro. Caso contrário, seria insuportável viver em sociedade. Hoje me questiono: será?

Uma Persona era uma máscara utilizada no teatro grego clássico para dar significado aos papéis interpretados pelos atores, muitas vezes fazendo com que um mesmo ator encenasse vários papéis diferentes em uma mesma peça. Jung usou essa mesma palavra para nomear um arquétipo que descreve o comportamento de um indivíduo perante um grupo social com o intuito de adaptar-se ao meio em que vive. É a forma como nos colocamos diante dos outros, que vai desde a expressão física como roupas, adornos e objetos, até os papéis sociais que assumimos e a forma como nos expressamos nas nossas relações. Para Jung, é uma parte importante da nossa estrutura psíquica, necessária para manter nossas relações sociais harmônicas até determinado nível. Quem nunca foi a uma entrevista de emprego nervoso, mas pareceu calmo e tranquilo? Ou foi fazer uma apresentação de projeto para um grupo de pessoas importantes e precisou passar a impressão de estar seguro e confiante? Quem não teve que mudar a forma de se vestir para se adaptar a um emprego novo, uma cidade nova, uma família com costumes diferentes? Vou até mais longe… Quem nunca disse para alguém “nossa! que prazer em ver você!”, mas na verdade estava o pensando “que chata essa pessoa é!”? Tudo isso são máscaras (personas, papéis) que usamos para manter equilibrada e harmônica nossa vida social.
Bom, já que é tudo para manter minha vida social sem stress, então não há problemas em usar máscaras, certo? Hmmm… Errado. O problema não é usar as máscaras ou vestir personas para lidar com algumas situações específicas, mas achar que você É a máscara. Quando não nos conhecemos, não sabemos quem somos na nossa essência, nos misturamos muito fácil com os papéis que desempenhamos. Deixamos de ser nós mesmos para sermos o papel que representamos. Vou dar o exemplo de um oficial das forças armadas. Se esse papel é exercido por alguém que sabe que deve usá-lo sob certas circunstâncias e locais, ele usa a persona de uma forma saudável. Porém, se esse oficial usa as mesmas características do papel em outras partes da sua vida (ou seja, ele é oficial das forças armadas até com sua família e amigos), isso pode trazer dor, angústia e sofrimento para ele e para quem convive com ele.
O mesmo acontece com nossas emoções! Estamos constantemente sendo lembrados que precisamos ser felizes, alegres, positivos. Ou melhor, precisamos parecer e agir como se fossemos felizes o tempo todo. Se um dia acordamos de mau humor ou tristes por um motivo conhecido ou não, somos chamados de ranzinzas ou pessimista. Então, preferimos usar a máscara de “feliz” por medo de sermos julgados como “emotivos” ou “fracos” ou por acharmos que “nossa dor vai estragar o dia do outro”, reforçando a máscara de bem estar. Claro que falar sobre uma dor traz uma sensação de vulnerabilidade que não estamos acostumados a lidar. É necessário que saibamos a melhor hora e escolhamos a pessoa mais adequada para ouvir de forma amorosa e acolhedora sobre nossos sentimentos, para que não nos sintamos fragilizados em demasia. Aos poucos, é possível trabalhar essa dor, tirar a máscara e ser genuinamente feliz.
Quando confundimos quem somos com o papel que desempenhamos, acreditamos mesmo que somos essa persona e deixamos de lado quem somos de verdade! Isso traz malefícios para nossa saúde emocional que duram até o momento que decidimos não mais usá-la. Cansa usar máscaras o tempo todo. Quando percebemos isso e deixamos que ela se vá, traz alívio enorme. Porém precisamos entender que não basta só não ser o papel, é necessário conhecer a si mesmo para não voltar a velhos padrões. Nesse sentido, o processo de psicoterapia é de grande importância, pois permite que você conheça melhor a si mesmo, dando ferramentas para que você possa perceber que não é sua persona, e também te ajuda a compreender que ainda assim pode usá-la de forma saudável e sem peso.
Falei no começo do texto que me questionei bastante sobre as máscaras. Um sonho que tive me fez ver o quanto elas doíam em mim. Há anos atrás, logo quando comecei a buscar me conhecer, sonhei que me olhava no espelho e percebia que eu usava uma máscara. Tirava ela e via como meu rosto estava cheio de feridas por baixo. Lembro que no sonho eu só me olhava daquela forma e pensava “que bom! agora vou poder curar minhas feridas!”. Sem máscaras, somos muito mais autênticos em nossas relações e podemos deixar para usar uma persona ou outra quando necessário. Apenas quando necessário, e sem esquecer quem somos de verdade na nossa essência.

Sobre o autor Sara Matos

Psicoterapeuta e empreendedora.

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