Nas pesquisas que estou fazendo, percebo que uma das emoções que mais trava uma pessoa na hora de decidir ter sua própria empresa (ou não) é o medo. Eu tive e tenho medo de empreender. Por um tempo, esse medo me paralisou e me impediu de dizer “sim” para meus sonhos. Hoje, ele é um grande aliado no meu crescimento como pessoa e como empreendedora.

O medo é uma das emoções básicas do ser humano e tem uma função importante: nos manter vivos. É ele que nos impede de pular de bungee jump sem equipamento de segurança ou de entrar numa jaula com um tigre achando que é um gatinho grande. É ele que nos impede que corramos riscos, mesmo aqueles que sabemos que não colocam nossa vida em perigo.
Quando comecei, meus medos tomaram algumas formas de “e se…”:
– E se… eu não der certo?
– E se… eu sentir falta do ambiente corporativo?
– E se… eu não tiver dinheiro o suficiente?
– E se… eu não tiver apoio?
A lista era enorme. Aliás, não deixou de ser. O que mudou foi a forma como enxergo e respondo ao medo de ter minha própria empresa.
Sentir medo é algo inerente e necessário para nossa vida. Nosso cérebro foi construído ao longo do tempo para que essas emoções básicas (medo, raiva, alegria, tristeza e nojo) ajudassem a perpetuar nossa espécie. Só que o ser humano de hoje conta com uma complexidade de emoções e situações bem diferentes das que nossos ancestrais viveram, mas nosso cérebro ainda responde às situações da mesma forma de sempre. Hoje, não corremos o risco de esbarrar com um leão ou um urso ali na esquina e morrer comido por eles, mas mesmo assim nosso cérebro interpreta cada situação (simples ou não) como se fossem “leões” que encontramos e trazem à tona aquela sensação de “matar ou morrer”.
Existem alguns tipos de medo, variando de um grau mais leve, o receio (a antecipação da possibilidade de um perigo), passando pela ansiedade (inabilidade em lidar com uma ameaça real ou imaginária), podendo chegar a pânico (consequência da inabilidade de reduzir o perigo) e ao terror, que é a maior intensidade de medo sentida pelo ser humano. Mesmo dentro de cada um desses tipos de medo há uma variedade de intensidade. A ansiedade pode vir de uma forma mais branda, como uma hesitação, podendo chegar a uma preocupação exacerbada que impede a ação. Saber o grau de intensidade que você experiência o medo pode fazer toda a diferença no seu dia-a-dia como empreendedor.
Quando eu comecei a montar minha empresa (até já falei antes um pouco sobre isso), um pensamento era muito recorrente na minha cabeça “será que vou ter dinheiro o suficiente para viver ou passar fome?”. Racionalmente, não havia motivos para pensar assim, até porque eu tinha um dinheiro guardado para me deixar minimamente segura por uns 6 ou 8 meses. Mesmo assim, o receio que eu tinha de ficar sem dinheiro aumentava e eu passei a dormir mal, pensando no que eu ia comer nos próximos dias. À medida que meu medo ia aumentando, meu coração batia mais acelerado que o de costume e minha respiração começava a ficar ofegante sempre que eu recebia uma conta para pagar. Minhas mãos tremiam quando eu ia no supermercado. Eu estava com tanto medo de algo que não tinha acontecido que acabei “congelando”. Faltou muito pouco para eu entrar numa crise de ansiedade permanente. Foi então que comecei a perceber meu corpo, minhas reações e, principalmente, o que se passava na minha cabeça alguns segundos antes da manifestação física. Desde que trouxe esse nível de consciência para minha vida, o medo não diminuiu, mas a forma como eu respondo a ele e como o utilizo como aliado tem mudado. Em vez de ficar paralisada, penso que se eu estou com medo de ficar sem comer, vou trabalhar mais para ter, em vez de sentar e esperar que caia do céu, certo?!
Meu caminho é muito peculiar, e mesmo nele eu sei que tenho que aprender lições ainda valiosas com relação ao medo que sinto. Apesar de hoje eu estar mais consciente da forma como ele se manifesta, ele tem encontrado outras mais sutis e desafiadoras. Sigo respirando e me entendendo. E se você também está no caminho, está com medo e quer saber os passos que dei, aqui vão:
– Meditação. Consciência do corpo é fundamental para identificar a manifestação do medo e não permitir que ele chegue ao nível do pânico. Yoga também ajuda bastante.
– Identificação da fonte do medo. Olhe para o que você sente e tente identificar qual a situação mais antiga que você se lembra de ter sentido isso. Nosso cérebro cria caminhos neurais para cada situação que vivemos. Nosso medo de hoje é a resposta que ele aprendeu a uma situação que vivenciados no passado e há meios de “desprogramar” isso.
– Entenda quais as suas reações construtivas e destrutivas a partir desse medo. E escolha viver a reação construtiva!
Se, por acaso, você percebe que o medo de empreender aumentou demais, está te atrapalhando porque parece que ele controla suas ações, pensamentos e reações, não o contrário, procure a ajuda de um especialista no assunto. Fechar os olhos para o que sentimos não é a melhor estratégia. O melhor é sempre entendermos como nos sentimos, até para lidarmos de uma forma mais saudável conosco e com o mundo que nos rodeia.

Sobre o autor Sara Matos

Psicoterapeuta e empreendedora.

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