Esse é um daqueles assuntos que pouca gente quer falar no empreendedorismo. E quando fala, usa algumas fórmulas já tão batidas: “erros comuns que fazem o negócio falir”, “empreendedor vai falhar várias vezes antes de dar certo” ou “falhar é parte do processo”. Jura ?! Sério mesmo?! Não sabia! (alto nível  de ironia aqui, hein?!)

Sabe, me lembro da primeira vez que senti que falhei na minha vida. Quer dizer, provavelmente existiram outras tantas antes dessa, mas essa foi a que me veio primeiro à memória com aquele sentimento tão conhecido de “me lasquei”. Estava na 4a série e tirei minha primeira nota abaixo da média. Não qualquer nota, eu tinha tirado um 4 em história (eu odiava e continuo odiando ter que decorar coisas). Meu ponto aqui não é fazer uma crítica ao nosso ultrapassado sistema de ensino, mas sim mostrar como uma experiência que acontece durante um momento da vida pode gerar um padrão para todo o resto dela. E, principalmente, mostrar que podemos aprender a lidar melhor com ele quando conhecemos como ele funciona.
No momento que recebi a prova e vi a nota, minha reação de criança foi me culpar. “Falhei no meu trabalho. Agora estou com medo de meus pais brigarem comigo. Eu não faço nada direito. Se eu tivesse estudado mais, me dedicado mais, não teria ido mal.” Então, para resolver o problema, escondi a prova (esperta, não?!). Se eles não soubessem da existência dela, o problema não existiria. Só que chegou o boletim e eu tive que enfrentar meu medo: expor para os meus pais minha falha. Ok que podem pensar que era só uma prova, mas meu ponto aqui é que, para uma menina de 12 anos, era a vida dela. Essa forma de lidar com falhas acabou virando padrão de reação na minha vida por muito tempo.
O que essa minha experiência tem a ver com empreendedorismo? Tudo! A forma como aprendemos, no passado, a lidar com novas situações acaba influenciando as nossas decisões de hoje. Para mim, com 12 anos, foi a melhor forma que eu achei para lidar com o fracasso, mas isso não significa que ainda hoje eu precise agir do mesmo jeito. Infelizmente, não é assim que nosso cérebro funciona. Ao viver uma situação nova, nosso cérebro registra “um caminho” e deixa ele ali, pronto para agilizar futuras reações. Ele age assim: “Passei por uma situação estressante e sobrevivi? Ótimo! Vou guardar esse padrão de ação para a próxima vez que uma situação parecida acontecer e eu poder agir mais rápido.” Então, quando você tem 20, 30, 40 ou 100 anos, se você não tem consciência do padrão e não muda, você reagirá da mesma forma sempre que uma determinada situação acontecer. O problema é que, quando você lidou pela primeira vez com um fracasso, você tinha uma idade e maturidade que não tem nada a ver com o que você é hoje. E quando você falha de novo, independente da idade que você tenha, você traz à consciência aquela criança/adolescente/adulto de “N” anos e sua forma de lidar com tudo aquilo para tomar uma decisão em vez de encarar a situação como nova e tentar resolve-la usando o conhecimento e a maturidade que você tem hoje.
Tudo isso para poder te dizer uma coisa: enquanto vivos, estamos sujeitos a falhar. É parte natural da vida. A questão não é quando ou se você vai falhar, mas a forma como você lidou um dia com o fracasso vai ser um forte determinante de como você lidará com ele quando acontecer de novo. E como vai ser? Com medo de rejeição? Com culpa? Com raiva? Vai tentar fugir? E qual será sua estratégia de fuga? Vai enfrentar? Como?
Para quem está começando, para quem já está nesse caminho há algum tempo, entender que hoje você tem escolhas, que pode e deve mudar padrões de pensamento que não estejam de acordo com seu momento de vida, é tão importante para o seu negócio quanto qualquer outra ferramenta que você use. Por isso, cada situação que você viver, tire o “piloto automático” do volante e se pergunte “como eu posso fazer diferente?”.

Sobre o autor Sara Matos

Psicoterapeuta e empreendedora.

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