Ano passado, resolvi empreender. Deixar a vida corporativa que não me satisfazia mais. Óbvio que vem à mente as questões óbvias: será que minha ideia vai dar certo? vou ter clientes? como vou colocar o negócio de pé? será que minha família vai me apoiar? Mas duas delas martelaram minha cabeça por muito tempo: como vou me manter? (que às vezes eu trocava por algo mais extremo, do tipo “vou passar fome”) e será que eu tenho “estômago” para empreender?

Eu tinha uma carreira em uma multinacional bacana, um bom salário, com chefes legais de verdade, mas me sentia feito um peixe fora d`água e cansada porque eu tinha ideias diferentes. Acho que quem hoje tem sua própria empresa e já esteve numa situação assim como a minha sabe do que estou falando. E, oh… longe de mim questionar o caminho de cada um. De verdade! Conheci pessoas que amam o mundo corporativo, tinham planos de carreira bem estruturados e sabiam muito bem onde queriam chegar. Minha questão é que eu queria chegar em “A”, a empresa queria chegar em “B” e eu estava ficando maluca. Enfim… Se chega a hora em que temos que escolher entre a estabilidade de ter um salário fixo todo mês e fazer algo que faça seu coração vibrar, então já sabemos que é hora de buscarmos um caminho diferente.

Estou, oficialmente, empreendendo fulltime desde dezembro. Do dia da decisão, há mais de dois anos atrás, o caminho foi longo. LONGO. Não vou nem entrar em detalhes sobre os passos agora, porque pretendo fazer isso ao longo dos textos que vou publicar, mas queria falar do motivo pelo qual resolvi abrir esse canal e tentar ajudar empreendedores como eu: tem coisas que curso nenhum vai te ensinar. E é nessa parte que reside o assunto que pouca gente quer abordar: o lado escuro do empreendedorismo. Por lado escuro, me refiro a experiências desafiadoras, pensamentos, emoções e comportamentos que são despertados (ou amplificados) enquanto empreendemos e que trazem desconforto para nossa vida. Ainda não vi um curso que me ajude, como empreendedora, a lidar com o medo, rejeição, ansiedade, tristeza, falha, luto e tantas outras emoções e sentimentos que são considerados tabus dentro do empreendedorismo. A lista é enorme, você e eu sabemos disso.

Para “piorar” esse tabu, o empreendedor é levado a acreditar que ele tem que dedicar 300% do seu tempo para fazer a empresa crescer. Para conseguir isso, ele dorme pouco, não se exercita, come de forma inadequada e em horas inadequadas e o tempo para dedicar a si mesmo, seu lazer e seus amigos e familiares fica pra quando dá. Fazer isso por alguns dias, para dar aquele gás na ideia, é natural que aconteça. O problema, como sempre, reside nos exageros. Não é ruim o dedicar-se intensamente ao seu objetivo, mas dedicar-se exclusivamente a ele sim pode te prejudicar. Aos poucos, o empreendedor vai se convencendo que a única coisa importante na sua vida é fazer sua empresa dar certo. E quando ela dá certo, ele se convence que tem que continuar ali e fazer ela crescer. E quando ela cresce, ele se convence que tem que se dedicar mais para que ela… Assim ele vai até que o próprio corpo dê sinais de que é hora de parar.

E sabe uma coisa que eu descobri? Talvez seja óbvia para muita gente, mas para mim foi tipo “heureca!”, é que a empresa, principalmente nos primeiros estágios, é um grande espelho do seu dono e reflete diretamente aquilo que ele é (quer ele saiba disso de forma consciente ou não). Não só na forma como ele lida com toda a parte prática (finanças, controle, execução de projeto, etc), mas também como ele reflete na empresa seu sistema de crenças, suas emoções, sua saúde mental e, dependendo do caso, até sua história familiar. Vou abrir meu coração e contar um tiquinho da minha história para ilustrar porque cheguei nessa conclusão (nem sei se deveria fazer isso, mas já que estou na chuva mesmo, né?! bora lá!). Meu avô era empreendedor, meu pai é empreendedor. Os dois falharam. Para mim, Sara, empreender era falhar e levar minha família a passar necessidade por um tempo. E depois se erguer e continuar. Quando eu decidi empreender, sem que eu me desse conta, meu sistema de crenças (esse que achava que empreendedorismo = falhar = passar necessidade) foi ativado e eu tive medo. Ainda tenho, na verdade. Por isso que entre a decisão e a ação ficou um gap de 2 anos. A diferença que hoje eu sei que falhas acontecerão e que, se eu souber ser resiliente como eles foram, voltarei a crescer. Entende que minha visão saiu do negativo “vou falhar e causar sofrimento para mim e minha família” para o positivo “vou falhar e está tudo bem com isso… verei onde errei, aprenderei e voltarei a crescer depois”? Levei dois anos pra entender e ressignificar isso.

Onde eu quero chegar? A-há! Vamos juntar as peças… Ponto 1: a maior parte do mundo empreendedor (leia-se revistas, cursos, jornais, livros, meetings, hangouts, blábláblá) não quer falar sobre assuntos tabus. Ponto 2: o empreendedor quer cuidar da empresa e se relega a segundo plano. Ponto 3: a empresa é reflexo do dono dela. Juntando tudo isso, dá pra entender melhor os dados trazidos por uma pesquisa norte americana (o link aqui) que diz que, enquanto 32% dos trabalhadores comuns pesquisados tem um ou mais problemas de saúde mental, comparado com 49% dos empreendedores (vou falar um pouco mais sobre essa pesquisa, em um outro momento). Ainda não existem dados assim sobre o empreendedorismo no Brasil. E também não existem dados de como a saúde mental do empreendedor influencia na saúde financeira da empresa, mas eu sei que todo mundo tem um caso de um tia-da-amiga-da-prima-da-vizinha que tinha depressão e viu a empresa dela fechar no meio disso tudo.

Outro dia li um artigo sobre empreendedorismo falando que empreendedor não tem direito a ter depressão, a se sentir vulnerável, a demonstrar fraqueza. Esse artigo não poderia estar mais… ahn… errado. Para dizer o mínimo. Acima de qualquer coisa, somos humanos e temos sentimentos demasiadamente humanos. O “pulo do gato” não está em ignorar esses sentimentos ou se deixar levar por eles, mas em saber lidar com eles e usá-los para amadurecer.

E é disso que vou falar aqui sempre. Tabus, empreendedorismo, saúde mental e meus passos por aí. 🙂

Sobre o autor Sara Matos

Psicoterapeuta e empreendedora.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s